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Deficiência de Vitamina D? A explicação pode estar no seu DNA

Herança genética é fator relevante no surgimento da doença

Muitas pessoas acreditam que o fato de estarmos num país tropical nos dá alguma espécie de “vantagem natural” com relação aos níveis corporais de vitamina D. Entretanto, conforme observado em estudo da Universidade de Porto Rico1, mesmo em regiões de baixas latitudes, como o Oriente Médio e o norte da África, há prevalência de baixos níveis de vitamina D em todas as idades. No Brasil, entre os adultos, são 77% com grau moderado de deficiência, índice semelhante ao da Noruega.

Isso acontece porque não necessariamente a incidência de sol em determinada região é sinônimo de que as pessoas se expõem ao sol de maneira adequada para manter os níveis de vitamina D num patamar saudável. De acordo com o Dr. Drauzio Varella2, o ideal é de 5 a 30 minutos de exposição solar, ao menos nos braços e nas pernas, uma vez a cada duas semanas, ou tomar sol no corpo inteiro a cada 2 meses, de modo a pigmentar a pele.

Um outro fator relevante no entendimento das condições de saúde associadas à vitamina D é a genética. Uma revisão de estudos genômicos de associação3 publicada em 2018 revelou diversos genes envolvidos em sua absorção, biossíntese e metabolismo, que exercem influência comprovada nos níveis séricos de vitamina D.

O que isso quer dizer? Para entender, antes devemos rever as etapas do caminho que a vitamina D percorre no organismo humano.

Vitamina D: funções, metabolismo e deficiência

As vitaminas são substâncias que, embora não possuam nenhum denominador comum do ponto de vista químico (ou seja, são estruturas completamente diferentes entre si), desempenham importantes papeis no corpo humano, que vão desde funções estruturais (como a vitamina C) até o funcionamento das células da visão (vitamina A), passando por metabolismo e digestão de lipídios (vitamina B12) e coagulação sanguínea (vitamina K).

Nutricionalmente falando, são micronutrientes, ou seja, se fazem necessárias em pequenas quantidades quando comparadas com proteínas e carboidratos, por exemplo, que requerem uma maior ingestão diária.

A vitamina D faz parte do grupo das vitaminas lipossolúveis, junto das vitaminas A, E, e K. Ao contrário das demais, que necessariamente precisam ser obtidas através da alimentação, até cerca de 90% da necessidade diária da vitamina D pode ser sintetizada por nosso organismo, desde que haja exposição adequada à radiação solar.

Sua principal função biológica é o estímulo à absorção de cálcio no intestino, isto é, o cálcio que ingerimos na alimentação. O cálcio, além de compor a estrutura ossos, é importante em diversos outros processos biológicos, como, por exemplo, a contração muscular. Por isso é importante que haja níveis sanguíneos adequados desse elemento.

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A principal doença oriunda da deficiência de vitamina D é o raquitismo, caracterizado por amolecimento e perda de resistência dos ossos, que são desmineralizados para repor os níveis séricos de cálcio quando não há absorção deste pelo intestino – situação comum na ausência de vitamina D.

Os genes e a vitamina D

O colesterol é a molécula a partir da qual a vitamina D endógena (ou seja, aquela que não é absorvida pela alimentação) é sintetizada4, em um processo que ocorre em diversas etapas, cada uma protagonizada por uma enzima diferente – portanto, por um gene diferente – e é aí que se encontram alguns dos “gargalos metabólicos” que podem resultar em problemas à saúde.

Um deles é o gene CYP2R1, que transcreve a vitamina D-25-hidroxilase, uma enzima que faz parte do grupo do citocromo P450 e é responsável por uma das etapas finais de ativação da vitamina D. Há também o DHCR7, relativo à enzima 7-dehidrocolesterol redutase, que transforma o colesterol em 7-dehidrocolesterol (também conhecido como pró-vitamina D), permitindo sua posterior conversão em vitamina D, desde que haja exposição solar. Esta é a primeira etapa do processo de produção dessa vitamina tão importante para nosso organismo. Sendo assim, diferentes variações dos genes CYP2R1 e DHCR7, presentes normalmente na população, podem exercer influência direta sobre os níveis de tal vitamina.

Não só a biossíntese da vitamina D, como também sua atividade pode ser limitada por variantes genéticas, especificamente no gene VDR, que codifica o receptor nuclear de vitamina D. Um estudo conduzido pela universidade McGill, no Canadá5, indica que algumas formas deste gene podem estar associados à baixa atividade do nutriente, devido ao fato de codificarem um receptor que não possui o tamanho ideal para interagir com a vitamina D – em termos celulares, este cenário é semelhante a uma menor quantidade de vitamina ativando o receptor.

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Diagrama ilustrando a biossíntese da vitamina D. Fonte: New England Journal of Medicine

Tenho insuficiência de vitamina D – e agora?

Antes de tudo, nunca é demais ressaltar a necessidade de acompanhamento profissional, por nutricionista ou médico, para determinar as ações a serem tomadas em caso de um diagnóstico deste tipo. Somente estes profissionais podem estabelecer o procedimento adequado para seu caso, tendo como base seu perfil clínico, estilo de vida e predisposições genéticas.

Saber a causa da insuficiência é importante neste caso, pois irá auxiliar no momento de decidir o tratamento. Há casos em que é necessário iniciar suplementação, enquanto em outros recomenda-se aumento da exposição solar, havendo também situações em que a prescrição de uma dieta específica, rica em vitamina D6 (contendo por exemplo peixes como salmão e sardinha, além de ovos e alguns leites enriquecidos), é o mais adequado. Em certas circunstâncias, o ideal, inclusive, pode ser uma combinação dos três. O que não é recomendado de maneira alguma é a introdução de suplementos vitamínicos sem prescrição de nutricionista ou médico. Na dúvida, tome um pouquinho de sol!

Você tem mais alguma dúvida relativa às funções da vitamina D no organismo, genes envolvidos com sua metabolização ou algo que não tenha sido abordado? Comente aqui embaixo!

Referências

  1. PALACIOS, C. GONZALEZ, L. Is vitamin D deficiency a major global public health problem? J Steroid Biochem Mol Biol. Out. 2014; 144PA: 138–145.
  2. DRAUZIO VARELLA. Vitamina D. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/vitamina-d/. Acesso em 12/2018.
  3. JIANG, X. et al. The Genetics of Vitamin D. Bone. Dez. 2018. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S8756328218303703?via%3Dihub. Acesso em 12/2018.
  4. JÄPELT, R. Vitamin D in plants: A review of occurrence, analysis, and biosynthesis. Frontiers in Plant Science 4:136 · Mai 2013.
  5. DASTANI, Z., et al. Genetic regulation of vitamin D levels. Calcif Tissue Int. Fev 2013;92(2):106-17
  6. BLOG TUA SAÚDE. Alimentos ricos em vitamina D. Disponível em: https://www.tuasaude.com/alimentos-ricos-em-vitamina-d/. Acesso em 12/2018.

 

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