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Mulheres na ciência: quem é Emmanuelle Charpentier e seu papel na descoberta do Crispr

Sumário de notas principais (SNP)

  • Uma das tecnologias mais badaladas ultimamente, o CRISPR – Cas9 é um sistema de edição de DNA;
  • O que poucas pessoas sabem é que ela se origina da pesquisa inicial de duas mulheres: Emanuelle Charpentier e Jennifer Doudna;
  • Há um enrosco jurídico envolvendo a patente inicial do CRISPR, que atualmente é detida por um pesquisador chinês, mesmo tendo sido descoberta pela dupla de pesquisadoras;
  • Recentemente, a técnica foi utilizada por pesquisadores chineses para edição gênica de bebês humanos; outros usos incluem melhoramento genético de espécies vegetais.

 

Se você é um entusiasta das novas tecnologias, em especial daquelas que envolvem genética e DNA humano, provavelmente você já ouviu falar sobre a técnica de CRISPR, que começou a ter um destaque maior na mídia nos últimos anos. Essa técnica ficou muito famosa após pesquisadores conseguirem realizar edições no DNA de bebês humanos, gerando indivíduos resistentes ao HIV. Apesar de ser um passo importante, muitas questões éticas circundam essa pesquisa, desde a discussão sobre os impactos que essas edições trarão no futuro até questões sobre quem seriam as reais responsáveis pelo desenvolvimento dessa metodologia.

Em homenagem ao dia da mulher na ciência, falaremos hoje sobre uma das cientistas que contribuiu muito com suas pesquisas para a descoberta do CRISPR-Cas9 e como seus artigos contribuíram para os avanços na genética: Emanuelle Charpentier. 

O que é CRISPR-Cas9?

O CRISPR, sigla para Conjunto de Repetições Palindrômicas Regularmente Espaçadas, foi descoberto a partir da observação dos mecanismos de defesa de algumas bactérias para se proteger de vírus. O CRISPR-Cas9 se refere à sequência do DNA de bactérias associada à enzima Cas9, formando uma molécula capaz de alterar genes de qualquer célula viva.

A técnica funciona como uma “tesoura” de DNA, onde é possível recortar as partes de interesse do genoma de forma cirúrgica e editá-las da forma que achar mais conveniente, ou silenciando-a ou reparando pontos necessários. A partir desse processo, já foram feitas edições que criavam cães musculosos, proporcionavam o melhoramento genético de plantas como trigo, milho e arroz – e até o tratamento de  paciente com câncer de pulmão.

Quem é Emmanuelle Charpentier?

Francesa, nascida em 1968, Emmanuelle une em um só ser duas características difíceis de se encontrar na mídia atualmente: além de mulher, a pesquisadora vem ganhando cada vez mais destaque por conta de sua obra. A ciência, ambiente especialmente hostil para mulheres, despertou o interesse de Emanuelle, que se formou na Universidade Pierre and Marie Curie em 1992, onde estudou microbiologia e bioquímica, e logo iniciou seu doutorado no Institut Pasteur – França – com término em 1995.

A descoberta do CRISPR-Cas9 e o imbróglio jurídico

Em 2012, junto à pesquisadora Jennifer Doudna, publicou o artigo que mudou a forma como entendemos e mexemos com o genoma, mencionando pela primeira vez o sistema conhecido como CRISPR-Cas9. Elas foram as primeiras cientistas a identificar que um mecanismo simples de defesa encontrado em bactérias poderia ser um importante recurso na edição do genoma de diferentes espécies.

Entretanto, a pesquisa inicial de Charpentier e Doudna mencionava a utilização do CRISPR apenas em organismos simples, como bactérias. Inicialmente isso não pareceu um problema, já que a invenção da técnica resultou muitos prêmios, exaltando o pioneirismo, além de artigos publicados em revistas de destaque e uma patente publicada em junho de 2012. Entretanto, em dezembro do mesmo ano, o pesquisador Feng Zhang entrou com pedido de patente após ter realizado a utilização da técnica em células eucarióticas, ou seja, mais parecidas com as células humanas.

A similaridade das duas patentes causou estranhamento e foi levada à Justiça norte-americana e ao comitê de ética para que pudessem avaliar a originalidade dos estudos de Zhang. De um lado, duas mulheres com uma pesquisa inovadora, porém ainda muito específica; do outro um homem com uma pesquisa mais abrangente, porém com maior aplicabilidade, que se beneficiava da invenção de Charpentier e Doudna.

Após várias avaliações e discussões sobre o caso, em fevereiro de 2017 a patente de Zhang foi avaliada como original. Mesmo sendo uma extensão do trabalho já feito por Emmanuelle e Jennifer, o comitê considerou que Feng iniciou o seu trabalho sem ter expectativa de sucesso, principalmente após declarações feitas por Doudna sobre a dificuldade em fazer sua técnica funcionar em células humanas.

Apesar do resultado das ações na Justiça, o pioneirismo das duas cientistas foi essencial para o surgimento de inúmeras possibilidades de modificações genômicas, inclusive, de células humanas.

Referências

  1. Marques, F. Guerra de patentes. Pesquisadores duelam por direitos de explorar a ferramenta de edição de genes CRISPR-Cas9 na justiça norte-americana. Revista FAPESP. Publicação: Julho de 2018, pg. 41. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2018/07/041-043_Crispr_269.pdf>
  2. Marina Barreto Felisbino. As mulheres que descobriram como editar o genoma. Publicado no Blog UNICAMP em 6 de junho de 2016. Disponível em: <https://www.blogs.unicamp.br/cienciapelosolhosdelas/2016/06/06/as-mulheres-que-descobriram-como-editar-o-genoma/>

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