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A história do Brasil contada pela genética de populações

A genética de populações é o campo da genética que estuda a relação entre marcadores genéticos e dinâmica de populações, ou seja, estuda, entre outras coisas, o impacto de fenômenos migratórios na distribuição de alelos dentro de uma determinada população.

Casos como o Brasil, que desde sempre experimentou intensos fluxos migratórios, tanto internos quanto externos, são um prato cheio para esta ciência, que muitas vezes ajuda a lançar luz sobre períodos nebulosos da história, que nem sempre é contada da maneira mais fidedigna.

Todos aprendemos na escola que a população brasileira é composta pela miscigenação de colonizadores europeus, nativos indígenas e africanos. Pode-se dizer que a história do que chamamos de Brasil – e dos brasileiros – gira em torno das relações entre estes componentes étnicos da nossa população.

Afinal, quem somos nós, os brasileiros?

À primeira vista, a resposta para essa pergunta é fácil: somos o produto da miscigenação entre os colonizadores portugueses, os índios que aqui viviam e aqueles trazidos do continente africano, assim como fora citado anteriormente. Além de todos estes, tínhamos os imigrantes que chegaram entre os séculos 19 e 20 – como alemães, italianos e japoneses. Somos, enfim, um povo mestiço geneticamente e também culturalmente que, apesar da diversidade, compartilha certos traços em comum.

A questão, porém, fica um pouco mais complicada quando se trata de buscar a essência do que se convencionou chamar de “caráter nacional”, aqueles traços característicos que explicam uma série de comportamentos que costumamos encarar com naturalidade mas que, quase sempre, causam surpresa entre os estrangeiros.

Que o brasileiro é miscigenado, é algo que se vê. Mas quanto? Em que proporção? Ainda no império, a mistura de etnias costumava horrorizar os europeus que desembarcavam aqui. Na época, influenciados pelas teorias raciais, eles viam na miscigenação uma ameaça de degeneração de todas as raças que viviam no país. Hoje, os biólogos já descartaram o próprio conceito de raça: os pesquisadores sabem que há tantas variações genéticas em um grupo com traços físicos em comum que a noção de raça perdeu seu sentido – o rastreamento da herança genética é feito por meio de análise do DNA.

Vamos falar agora sobre alguns importantes aspectos da história da nossa sociedade sob a ótica da genética de populações, e como alguns eventos históricos deixaram marcas evidentes no DNA de cada um de nós, brasileiros, independente da etnia à qual pertencemos.

O berço do Brasil é o Nordeste

Este é um fato relativamente óbvio devido à geografia: o Nordeste é mais próximo da Europa, portanto, seria o lugar onde os colonizadores aportariam primeiro. Foi, também, a região onde se desenvolveram as primeiras atividades comerciais relevantes do Brasil: o extrativismo de pau-brasil e a monocultura de cana-de-açúcar.

O pau-brasil era voluntariamente extraído pelos índios e trocado por quinquilharias tais como espelhos e colares. Dessa forma, os primeiros comerciantes deste produto não necessitavam de mão-de-obra escrava para conduzir o negócio. No entanto, com o início do plantio de cana-de-açúcar na primeira metade do século XVI, os primeiros africanos foram trazidos à força ao Brasil, com o objetivo de trabalharem nos engenhos canavieiros, na capitania de Pernambuco (que condiz com o atual estado de Pernambuco).

A partir de então, até o século XVIII, quando pela primeira vez descobriu-se a existência de ouro nas Minas Gerais, o açúcar foi o cerne da economia brasileira. Como todas as plantações se localizavam no Nordeste,as primeiras grandes cidades brasileiras, como Salvador, Recife e Olinda surgiram também nesta região. Desta forma, o Nordeste foi, por muito tempo, a região brasileira que mais recebeu desembarques de navios negreiros.

Um estudo publicado pela Nature mostra que, analisando separadamente as regiões de nosso país, o Nordeste é a que apresenta uma população com maior proporção de indivíduos com marcadores africanos em seu DNA,  o que ocorre em proporção significativa mesmo entre pessoas de pele clara. Isso é explicado tanto pelo fato de esta região ter recebido numerosos representantes do continente africano, quanto pelo fato de que a miscigenação no Nordeste iniciou há muito mais tempo do que em outras regiões – ou seja, passou-se tempo suficiente para que os marcadores genéticos africanos fossem amplamente distribuídos na diversidade genética local.

Pai europeu, mãe índia / africana

Muitas vezes romantizado, o conceito de miscigenação acaba por vezes deixando de lado a desproporcionalidade das relações entre colonizadores e colonizados / escravizados.

A natureza de tais interações é exposta em estudos de linhagem mitocondrial (ou mtDNA). O mtDNA de qualquer indivíduo é 100% herdado de sua, já que as mitocôndrias dos espermatozóides são degradadas nos momentos iniciais da formação do zigoto.

Neste estudo conduzido por pesquisadores da UFPA (PA) e da UFRGS (RS) foi encontrada participação de 50,2% de DNA africano e 46,6% de DNA indígena na análise do mtDNA de 159 indivíduos sem parentesco por parte de mãe. Neles, a participação de mtDNA europeu é de apenas 1,6%.

Este estudo mostra que homens portugueses mantiveram relações sexuais com mulheres africanas e indígenas, mas o oposto não necessariamente aconteceu. O fato de que muitas destas mulheres eram escravas leva a crer que a miscigenação brasileira tem, na verdade, muito pouco de romantismo.

Migrações recentes

Com a abolição da escravatura no final do século XIX, as fazendas de café do Vale do Paraíba perderam um grande contingente de trabalhadores escravos. Para suprir a demanda, a população brasileira passou a receber imigrantes que trouxeram novos componentes genéticos oriundos de outras partes do mundo, especialmente Itália, além de Alemanha, Líbano e Japão.

A migração dessas populações para o Brasil pode ser considerada relativamente recente, já que iniciou há menos de 200 anos. Embora possamos notar com facilidade a incorporação de suas culturas nos hábitos de indivíduos brasileiros que não necessariamente compartilham traços de ancestralidade com estas etnias, o mesmo não pode ser dito sobre seus genes. Um estudo conduzido por pesquisadores da USP, permitiu comparar os diversos componentes genéticos da população brasileira com marcadores genéticos conhecidos de populações não-miscigenadas.

Ao analisar uma amostragem de 619 indivíduos brasileiros, este estudo evidenciou grande sobreposição de nossa população com brancos, negros e indígenas, o que denota que estas populações sofreram intensa miscigenação em nosso país. Um grupo se destaca, no entanto, devido à baixa quantidade de indivíduos miscigenados com outras populações: os japoneses, que foram a última grande migração que o Brasil recebeu.

Em 1908, o navio Kasato Maru aportou no Porto de Santos trazendo quase 800 pessoas: os primeiros imigrantes japoneses que partiram do porto de Kobe para trabalhar nas lavouras de café. Pouco mais de um século depois, a comunidade japonesa no Brasil já ultrapassou a marca de 1 milhão de pessoas, o que corresponde a aproximadamente 0,5% da população brasileira, sendo composta em grande parte por mestiços, ou seja, pessoas que possuem ascendência tanto brasileira quanto japonesa. Com o passar do tempo, a tendência é que haja cada vez mais mistura entre o DNA japonês e o já altamente diverso DNA brasileiro.

Navio Kasato Maru, que trouxe a primeira leva de imigrantes japoneses para o Brasil. Fonte: Wikipedia

O que o futuro reserva?

Um país com uma mistura tão particular de povos e etnias acaba por possuir uma composição genética igualmente particular. Isso, aliado a pressões ambientais locais, favorece o estabelecimento de novas variantes genéticas, exclusivas da população local.

Conforme exposto em outro estudo conduzido também por pesquisadores da USP, este processo já começou a acontecer. Ao todo, já são conhecidas 200 mil marcadores genéticos únicos da população brasileira, inéditos em qualquer outra parte do mundo.

É importante que estas novas variantes sejam conhecidas e estudadas por diversas razões, principalmente dado o fato de que muitas delas podem estar relacionadas a doenças, e ainda mais dado que, por serem inéditas, não há estudos sobre elas em nenhuma outra parte do mundo.

Atualmente, o Brasil continua sendo um país atraente para pessoas de todas as partes do mundo, que buscam o país na tentativa de iniciar uma nova trajetória de vida, o que significa mais populações para integrar nosso já diverso panorama genético. Sírios, haitianos, venezuelanos, bolivianos, angolanos e senegaleses são algumas das principais nacionalidades que mais imigram para o Brasil nos últimos anos.

E como não há indícios de que a diversidade da população brasileira irá diminuir em um futuro próximo, isso significa aquisição de ainda mais marcadores novos e particulares para a nossa população, que precisam ser estudados e conhecidos. Porém, falando em futuro… só a história vai dizer quem serão os imigrantes que passarão a compor a população de nosso país nos anos vindouros, mas uma coisa podemos ter como certa: a genética de populações continuará sendo tanto uma testemunha quanto uma ótima contadora desta história.

Referências

  1. GRIOLO, S. Brazilian urban population genetic structure reveals a high degree of admixture. European Journal of Human Genetics vol. 20, pág. 111–116 (2012)
  2. CARVALHO, B. Mitochondrial DNA mapping of social-biological interactions in Brazilian Amazonian African-descendant populations. Genet. Mol. Biol. vol.31 no.1 São Paulo  2008
  3. Pesquisadores mapeiam a origem genética dos brasileiros. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kJbSvcKEkTQ&list=PLwA0zWYFcS_iD8oNJVThOOQ3pyR34mI2o&index=1. Acesso em 03/2019.
  4. PENA, Rodolfo F. Alves. Imigrações atuais no Brasil. Brasil Escola. Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/geografia/imigracoes-atuais-no-brasil.html.  Acesso em 01 de marco de 2019

Sobre o autor:Grupo Genera

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