Como as linhagens indígenas das Américas chegaram no Brasil?

Sumário de Notas Principais (SNP):

  • Muito antes de Colombo, os seres humanos colocaram os pés no continente americano pela primeira vez há cerca de 15 mil anos, vindos da Ásia. Para isso, atravessaram a Beríngia, uma ponte de terra que existia entre a Sibéria e o Alasca na última Era Glacial.
  • Durante este processo migratório, o pool genético destas populações se dividiu nos haplogrupos (linhagens) maternos e paternos que conhecemos hoje e que são encontrados nas populações ameríndias.
  • O haplogrupo paterno C e o haplogrupo materno B continuaram migrando pela costa oeste do continente americano, ao passo que o haplogrupo paterno B e maternos A, C e D permaneceram na América do Norte até que a Era Glacial terminasse e os animais de grande porte – cuja caça era a subsistência destas populações – tivessem condições de migrar e se espalhar em direção ao sul, representando um “atraso” de cerca de 2 mil anos. 
  • Atualmente, estas são as linhagens encontradas nos povos indígenas do Brasil e da América do Sul, inclusive no fóssil Luzia, o ser humano mais antigo de que se tem notícia no Brasil. 

O Homo sapiens surgiu na Terra há aproximadamente 300 mil anos no continente africano, e pelos 270 mil anos seguintes, nossa espécie conseguiu se espalhar pela totalidade desse continente e também para Europa, Ásia e Austrália. Todavia, ainda havia duas fronteiras principais a serem superadas: os mares da Oceania e os campos congelados do nordeste asiático. No texto de hoje falaremos sobre esta última passagem, também conhecida como Estreito de Bering, cuja travessia levou os ancestrais de todas as linhagens ameríndias atuais a realizarem a primeira e verdadeira descoberta da América, muito antes de Colombo e Cabral.

Em busca de campos mais verdes

Em algum momento por volta de 36 mil anos atrás, o local que hoje é conhecido como Estreito de Bering (um canal que separa a parte leste da Sibéria, na Rússia, da parte oeste do Alasca, nos Estados Unidos), ainda era uma massa de terra emersa, atualmente chamada de Beríngia. Esta passagem conectava os continentes americano e asiático, permitindo a migração de animais entre os dois continentes. Uma dessas migrações foi a da nossa espécie. 
Atualmente, temos o conhecimento que esse processo não foi de nenhuma maneira rápido. Foi necessário um período próximo de 15 mil anos para que ocorresse a travessia dos grupos humanos por essa ponte natural, e estes paleoindígenas demoraram tanto para chegar ao que é a América atual muito por conta da severidade climática da glaciação. Ao final desse período, a população original dessa primeira leva de migração já havia se dividido entre as linhagens que viriam a formar os nativos da América do Sul e os do Norte, inclusive com uma separação entre os que seguiram pelo litoral e os que seguiram pelo interior do continente. E é aí que se tem o início da primeira diáspora americana.

Enquanto houver terra, caminharei?

As hipóteses mais aceitas atualmente sugerem que a dispersão humana pela América acompanhou principalmente a costa do Pacífico, indo do norte ao sul, já que as evidências arqueológicas mais antigas se encontram nesse lado do continente. É normal esperar, dessa forma, que o sítio arqueológico mais antigo seria encontrado na parte norte do continente. Entretanto, até agora, é Monte Verde, no atual Chile, que ocupa este posto, tendo quase 15 mil anos de idade. Anteriormente, o recorde residia nos achados do povo de Clóvis, que habitou a atual região do Novo México, nos Estados Unidos, 13 mil anos atrás, mas atualmente outros vários locais foram encontrados com evidências mais antigas. Juntamente ao sítio chileno, eles provocam uma dúvida muito pertinente: como essas linhagens humanas superaram todas as barreiras ambientais existentes na última era do gelo – que só viria a se encerrar 5 mil anos depois – e conseguiram chegar tão rápido no extremo sul do continente americano? 

Pintura retratando uma situação de tensão entre um grupo de tigres dente-de-sabre e preguiças gigantes. Há três preguiças e uma delas está presa num poço de piche e as outras duas assumem postura defensiva contra os felinos que se aproximam. Empoleirados em uma árvore próxima há um grupo de condores e ao fundo da imagem há um bando de mamútes-de-colúmbia se alimentando.
Fosse pela megafauna ou pelos relevo e flora desconhecidos, o continente americano para os primeiros humanos que chegaram aqui era bem diferente do que vemos hoje. Reprodução por Charles R. Knight

A melhor explicação até o momento consiste em praias e barcos. Entenda: não é sensato pensar que os seres humanos daquela época seriam incapazes de atravessar as montanhas de gelo que haviam na América do Norte, pois nós sabemos que isso de fato ocorreu, como é o caso do próprio povo de Clóvis. Porém, também é improvável que uma distância aproximada de 30 mil quilômetros tenha sido superada em pouco mais de mil anos no meio de uma era glacial. Não havia uma tradição que ensinasse a geografia local, por exemplo, porque ninguém havia habitado o local antes. Não se pode assumir que é impossível, mas nenhum grupo humano anterior, sob essas mesmas condições, conseguiu realizar esse feito.
 As evidências para essa hipótese da travessia pela costa oeste americana são encontradas de diferentes maneiras: há evidências, dentre os vestígios desses grupos ancestrais, de comportamentos associados à vida na costa marítima, como consumo de algas para fins medicinais, alimentação majoritariamente composta por animais marinhos e uso de ferramentas como ganchos e arpões que só foram encontrados em outros locais que também possuíam hábitos costeiros. 
Outro fator que favorece essa hipótese está relacionado aos grandes mamíferos da América (como bisões, por exemplo), que apenas conseguiram atravessar as barreiras de gelo cerca de 13 mil anos atrás. Assim, grupos de caçadores nômades, que não possuíam os hábitos costeiros descritos anteriormente, teriam demorado mais para se expandir pela América, por serem dependentes da presença desses mamíferos que só se deslocaram quando surgiram corredores de vegetação entre o gelo que derretia.
Mas principalmente, há evidências genéticas desses movimentos migratórios que podem ser vistas no estudo dos haplogrupos materno e paterno. A linhagem paterna que carrega o haplogrupo C é encontrada ao longo de toda a extensão litorânea da parte oeste americana e também em grupos indígenas amazônicos, e é acompanhada também pela linhagem materna que contém o haplogrupo B. As evidências arqueológicas apresentam que eles caminhavam juntos antes mesmo de sair da Ásia, através da Beríngia e sempre no litoral. 
É um mapa que apresenta a rota usada pelo haplogrupo paterno C, saíndo da África e acompanhando a o litoral sul da Ásia até se ramificar entre um grupo que foi até a Austrália, um que permaneceu no centro asiático e outro que seguiu o caminho pela costa, atravessou a Beríngia e chegou até à América.
Rota usada pelo haplogrupo paterno C, um dos que migraram pela costa oceânica.

Nessa hora você pode estar se perguntando: “se existem tantas evidências que mostram um fluxo pela costa oceânica, qual é o desafio para conseguirmos provar que de fato esse foi o principal trajeto usado?”. Essa pergunta tem uma resposta muito certeira: o nível do mar subiu em aproximadamente 120 metros desde que acabou a última era glacial. É possível que existam várias evidências como barcos e suas ferramentas de construção, mas elas estão afundadas e soterradas a quilômetros da atual costa continental, e operações de mergulho para recuperar esse tipo de evidência são esforços homéricos e extremamente custosos, mas felizmente eles continuam sendo realizados por diferentes grupos de pesquisa da área.
 
Os grupos que seguiram pelo interior do continente, como já apresentado, tiveram que esperar mais tempo para realizarem a migração para o sul, uma vez que acompanhavam o movimento migratório dos grandes mamíferos do norte. Foram necessários mais 2 mil anos antes de prosseguirem para as grandes planícies do Canadá e Estados Unidos e subsequentemente realizarem a travessia da América Central. As evidências genéticas revelam que a maioria dos grupos indígenas brasileiros possuem o haplogrupo paterno Q e  os maternos A, C e D, enquanto a mesma coisa se repete para a maioria dos nativos norte-americanos, deixando clara a separação entre as linhagens que seguiram as diferentes rotas na Beríngia.
 
Mapa que apresenta a trajetória do haplogrupo materno A, que ao sair da África permaneceu no interior dos continentes por onde passou, indo inclusive para a Beríngia e chegando na América, ainda somente no interior do continente,
Rota usada pelo haplogrupo materno A, um dos que migraram pelo interior do continente americano

O caso Luzia

Já vimos, neste texto, que os paleoamericanos haviam descoberto o atual Chile em algum momento próximo de 15 mil anos atrás, e por isso é sabido que a habitação indígena no Brasil começou por volta do mesmo momento. No Brasil, o esqueleto humano mais antigo que foi encontrado é o da Luzia, que foi uma mulher de um metro e meio de altura que viveu até seus 20 anos e morreu aproximadamente 11 mil anos atrás. Seus restos foram encontrados na gruta da Lapa Vermelha, que atualmente se localiza dentro da região metropolitana de Belo Horizonte, MG. 
 

A imagem apresenta a reconstrução do rosto da Luzia enquanto ao lado dela há um modelo de seu crânio e no fundo da imagem há um homem com olhar de curiosidade e dúvida encarando o modelo de cabeça.
Clássica reprodução de como teria sido o rosto e a cabeça da Luzia quando ela estava viva.

 
Curiosamente, os estudos iniciais de sua estrutura craniana indicavam um fenótipo mais próximo de africanos e aborígenes australianos do que dos outros americanos, o que sugeriu por muitos anos que a corrente migratória que seus ancestrais tinham usado deveria ter vindo, de alguma forma, da Austrália, da Melanésia ou da África, e não do centro asiático, como é o caso de todos os outros ameríndios.
Atualmente, essa hipótese é descartada pois sabe-se que estes traços fenotípicos estavam presentes em inúmeras populações humanas até então, e as diferenças que vemos atualmente teriam começado a se consolidar aproximadamente nessa mesma época. Além disso, essa análise constatou uma relação muito forte com o atual grupo indígena dos Aimorés (também chamados de botocudos), que habitam principalmente a região compreendida entre o sul da Bahia, norte do Espírito Santo e Leste de Minas Gerais, tirando de vez a dúvida de que a mais velha brasileira já encontrada teria vindo de um processo migratório completamente diferente dos demais ameríndios.

Referências

  1. Terminal Pleistocene Alaskan genome reveals first founding population of Native Americans
  2. New insights into Eastern Beringian mortuary behavior: a terminal Pleistocene double infant burial at Upward Sun River.
  3. Two contemporaneous mitogenomes from terminal Pleistocene burials in eastern Beringia
  4. Monte Verde: Our Earliest Evidence of Humans Living in South America
  5. The American Hike, 27000 km walking from Ushuaia to Alaska
  6. Oldest Evidence of North American Settlement May Have Been Found in Idaho
  7. Ancient human population histories revealed in Central and South America
  8. 2/24/17 Study shows ancient humans arrived in South America in multiple waves
  9. Ancient DNA Maps Early American Migrations in New Detail
  10. Why Did Humans Migrate to the Americas?
  11. Estudo contradiz teoria de povoamento da América e sugere que rosto de Luzia era diferente do que se pensava
  12. Os sobreviventes: Crânios de índios extintos do Brasil Central indicam elo com primeiros povoadores da América