Qual é a origem do circo e como ele chegou ao Brasil?

Respeitável público! Hoje é dia de circo. Na verdade, hoje é o Dia do Circo. 

Em celebração a essa data, comemorada no Brasil no dia 27 de março, queremos dar destaque a essa expressão artística tão antiga e tão apreciada em todo o mundo. 

O circo e seus mais diversos elementos estão no imaginário de todas as pessoas, independentemente da geração em que elas nasceram. E eles são muitos: desde o picadeiro, onde se apresentam os palhaços, os mágicos e os malabaristas, até a lona que cobre quem está nos ares, como os trapezistas e os equilibristas na corda bamba. 

Falar de circo é falar, também, de anos de dedicação ao espetáculo, de tradição familiar e das suas viagens pelo mapa. 

Apesar de ter chegado ao Brasil somente no século XIX, com famílias vindas da Europa, existem registros da arte circense há milhares de anos em diferentes lugares do mundo, como no Antigo Egito, na Grécia e na China. 

Aqui contamos um pouco sobre o surgimento do circo, como ele veio para o Brasil e exploramos algumas das suas principais características. Vamos lá? 

O circo antigo 

A história do circo é bastante antiga e, para entendê-la, temos que fazer uma viagem ao passado e voltar alguns milhares de anos. 

Existem registros de algumas das atrações circenses que conhecemos hoje em dia que datam de, pelo menos, 5.000 anos atrás. Na China, nessa época, foram encontradas pinturas representando acrobatas, contorcionistas e equilibristas. Gravuras como essas também podem ser vistas nas pirâmides e tumbas egípcias, construídas há aproximadamente 3.000 anos. 

Segundo alguns pesquisadores, em algumas culturas, como nas asiáticas, a prática de acrobacias – utilizando diversos tipos de objetos, de utensílios domésticos a armas de lutas marciais – estaria ligada a rituais religiosos. Na China, a propósito, essas atividades ficaram restritas a cultos e a sociedades secretas após serem excluídas das políticas culturais dos imperadores da época, que tentavam fomentar outros tipos de arte, como a música e a ópera.

Apresentações de acrobatas utilizando diversos objetos existem há milhares de anos em várias culturas. 

A palavra “circo” é igualmente antiga. Sua etimologia é grega, e tem a mesma raiz de palavras como “círculo” e “ciclo”. O termo foi emprestado pelos romanos para se referir às arenas de formato circular onde aconteciam espetáculos e competições.

A mais notável dessas arenas era o Circus Maximus, de Roma, que tinha capacidade para mais de 150 mil espectadores (embora algumas fontes digam que o espaço comportava até 300 mil pessoas). Entre as suas principais atrações estavam apresentações com animais, corridas de carruagens e batalhas de gladiadores.

O circo moderno e seus inícios no Brasil  

Os exemplos anteriores são apenas alguns destaques da arte circense ao redor do mundo, mas é importante frisar que elas estão presentes em diversas outras culturas há muito tempo. É o que destaca a doutora em Artes da Cena e também atriz e artista circense Maria Emília Tortorella: “as habilidades que hoje reconhecemos como circenses sempre existiram. Malabarismo, acrobacias, doma de animais, entre tantas outras, acompanham a humanidade há muito tempo”. 

O circo moderno, nos mesmos moldes do que conhecemos hoje, surgiu na Inglaterra e, de lá, se espalhou para o mundo. A pesquisadora Maria Emília comenta que quem teve muito a ver com a sua disseminação foram os saltimbancos, artistas populares que costumavam fazer suas performances em praças e em outros locais públicos e viajavam por várias cidades se apresentando. 

Na Inglaterra do século XVIII, por volta do ano 1768, os saltimbancos começaram a fazer parte de shows projetados para uma pista circular, semelhante aos picadeiros dos circos atuais, ressalta Maria Emília. Por se apresentarem em várias cidades diferentes, o tipo de arte dos saltimbancos se popularizou na Europa, especialmente na França, e, mais tarde, foi trazido às Américas, inclusive ao Brasil.

Os espetáculos circenses já eram bastante populares no Brasil no século XIX. Maria Emília Tortorella conta que, segundo a historiadora Ermínia Silva, o primeiro circo formalmente estruturado a desembarcar no país foi o circo Giuseppe Chiarini, em 1834. Antes disso, contudo, várias famílias de ciganos já haviam trazido consigo elementos do circo para o Brasil.  

As guerras e a falta de perspectiva econômica no exterior colaboraram para que diversas trupes viessem ao nosso país e se instalassem por aqui. 

No Brasil, seu dia é comemorado em 27 de março, data do nascimento de Abelardo Pinto, o palhaço Piolim, artista que teve bastante relevância no início do século XX, inclusive durante a Semana de Arte Moderna de 1922.

Os palcos dos circos, chamados picadeiros, têm tradicionalmente o formato circular, com o público localizado ao seu redor.
De cidade em cidade, a mesma família 

“Tal pessoa fugiu com o circo!” Esse é um caso comum contado principalmente pelas gerações mais antigas. O circo chegava à cidade, ficava ali por alguns dias e logo ia embora. Nesse meio-tempo, uma pessoa ou outra se unia à trupe, seguindo a sua jornada até a próxima cidade e assim por diante. 

Um dos motivos pelos quais formou-se uma tradição de circos itinerantes foi porque as viagens permitiam que mais públicos fossem alcançados por essa arte. Muitas pessoas, especialmente há séculos atrás, não tinham como se locomover a outras cidades, principalmente com o objetivo de consumir arte. Os circos, então, tentavam chegar até elas. 

A mudança de cidade em cidade contribuiu, também, para o desenvolvimento do circo. Ao visitar os povoados, os artistas encontravam diferentes expressões artísticas e elementos das culturas locais, que, por vezes, acabavam sendo incorporados aos seus circos.  

Outra característica intrínseca aos circos é a sua composição familiar. A artista circense e doutora em Artes da Cena Maria Emília Tortorella explica que “a constituição circense em famílias é herança desde antes do circo ser circo. Ela é, ao mesmo tempo, causa e consequência da forma de trabalho e da vida nômade”. 

De acordo com a pesquisadora, um circo tradicional tem geralmente uma família proprietária, mas é formado por várias famílias diferentes. Há, ainda, outras famílias que atuam como artistas contratados a depender do espetáculo. 

Essa configuração e o contato contínuo entre as famílias – afinal, viajam juntos constantemente e por longos períodos de tempo – colabora para que seus membros se casem entre si, mantendo o “negócio” entre família. 

Maria Emília Tortorella aponta que, entretanto, a formação dos circos atuais é distinta. Muitos dos circos não contam com pessoas da mesma família nem pertencem a famílias específicas. Isso se deve à profissionalização e educação formal dos artistas circenses, que começaram a frequentar escolas de circo, surgidas no Brasil especialmente na década de 1980.

Uma das principais características dos circos tradicionais é o seu caráter itinerante, passando com o mesmo espetáculo por várias cidades.
O futuro do circo 

O circo é uma expressão artística em constante evolução e que, desde que o início das nossas memórias, lá na infância, está em nosso imaginário. 

A estimativa é que existam no Brasil cerca de 2 mil circos, com aproximadamente 25 mil profissionais, segundo levantamento da União Brasileira de Circos Itinerantes.  

A realidade é que esses inúmeros circos, pequenos ou grandes, itinerantes ou não, com malabaristas ou com palhaços, seguem despertando o interesse e a atenção do público. Claro que, para o seu desenvolvimento e para que possam funcionar, são necessárias políticas públicas, ressalta a pesquisadora e artista Maria Emília Tortorella, “sobretudo para fomentar a criação e a pesquisa em circo, garantindo à população a fruição de espetáculos circenses ricos em diversidade estética e poética”. 

E quando perguntada sobre o cenário do circo no Brasil atualmente, a pesquisadora conclui: “a arte circense é forte e, eu ousaria dizer, perene, porque é constituinte de sua linguagem se adaptar, se transformar, se moldar à sua contemporaneidade”.

Referências

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