Coronavirus: a genética das pandemias

Sumário de notas principais (SNP)

  • o Coronavirus já esteve nos noticiários antes: o surto de SARS em 2003 era causado por um vírus do mesmo gênero
  • a OMS classificou o surto como emergência global; Brasil permanece com 9 casos suspeitos;
  • Mutações e recombinações gênicas são comumente as causas de surtos do tipo, bem como dificultam o tratamento e criação de vacinas;
  • Já é conhecido o genoma do 2019-nCoV; em surtos anteriores, sequenciamento demorou meses;
  • Fake news podem ser tão prejudiciais quanto o próprio vírus, ou até mais. Verifique as informações que você transmite.

Desde o final de 2019, chama a atenção das autoridades de saúde ao redor do mundo o surto de doença respiratória por coronavírus iniciado em Wuhan, na China. Atualmente, a OMS já classifica a epidemia como emergência de saúde pública global, especialmente pelos inestimáveis possíveis danos em países com sistemas de saúde pública menos robustos.
Apesar do recente burburinho sobre o coronavírus, vale lembrar que este gênero viral não é novo, e já esteve nos noticiários antes: no final de 2002, uma doença chamada SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa) e que era causada por um outro coronavírus também foi protagonista de um surto global que deixou o mundo em alerta vermelho. Além disso, pandemias como a gripe A H1N1 (2009) e o surto de Zika Vírus (2016) podem ser destacadas como grandes surtos recentes. No Brasil, ainda são apenas 9 os casos de infecção por 2019-nCoV (nome oficial da nova espécie de coronavírus), de modo que o Ministério da Saúde ainda não se posicionou em termos de classificação de grau de emergência. 
Todas estas emergências epidemiológicas possuem um aspecto em comum: são protagonizadas por vírus, formados por um fragmento de ácido nucleico (DNA ou RNA) protegido por um envoltório celular (como uma cápsula protetora). Apesar de possuírem estruturas tão simples, como esses seres conseguem causar tanto transtorno à saúde pública?

Infecções virais e drift antigênico

Essas pequenas estruturas que chamamos de vírus não se tratam de seres vivos, informação que pode parecer estranha em um primeiro momento, mas que se dá ao fato desses seres não se reproduzirem por conta própria, ou seja, necessitam de um hospedeiro para se multiplicar. Em muitos casos, este processo envolve usar o maquinário celular de um determinado tipo de célula deste hospedeiro, comprometendo sua função: é aí que o vírus passa a ser um patógeno
Por exemplo: o HIV infecta células do sistema imune, que são mortas no processo, comprometendo a imunidade do infectado. O Influenza infecta células do trato respiratório, causando os sintomas característicos da gripe, e assim por diante.
Ao contrário dos seres vivos convencionais, que possuem dispositivos de resistência a mutações, vírus são seres mais propensos a alterações em seu material genético, de modo que se observa um fenômeno conhecido como drift antigênico, que nada mais é do que a mudança na estrutura e material genético viral ao longo do tempo, oriundo de seu processo de replicação. Isso faz com que a variância nos gêneros virais seja maior que, por exemplo, em bactérias, o que faz com que vírus sejam, em geral, agentes mais contagiosos, bem como em muitos casos dificulta a criação de vacinas para as doenças causadas pelos mesmos.
Isso é ainda mais difícil quando o vírus é uma espécie híbrida.

Shift antigênico: intercâmbio viral entre espécies e vírus híbridos

Muitas pandemias citadas acima tem origem em outras espécies animais: a gripe A H1N1 teve origem em porcos, a H5N1 teve origem em aves, o Zika Vírus normalmente infecta macacos. A Peste Negra, que matou uma boa parte da população europeia no século XIV, teve sua origem traçada às pulgas de ratos. 
Acontece que há muitos tipos virais endêmicos (ou seja, comuns) em animais, mas que, normalmente, não infectam outras espécies. Porém, a convivência próxima entre pessoas e animais pode causar um fenômeno conhecido como shift antigênico, que é quando acontece a recombinação entre trechos virais de espécies diferentes formando um terceiro vírus, capaz de contaminar tanto uma espécie quanto a outra. Normalmente, quando isso acontece, a doença passa a ter o nome da espécie em questão, como se popularizou o termo “gripe suína” para se referir à infecção por H1N1.
O shift antigênico foi descrito por Richard Shope, em 1932, quando o pesquisador usou secreção nasal de porcos infectados por gripe para infectar outros animais, provando, assim, que é possível uma espécie viral inicialmente endêmica em uma espécie sofrerem adaptações e passar a ser capaz de infectar outras. 

A genética do novo coronavírus: o que sabemos?

Coronavírus são vírus de RNA positivo, e a cepa de Wuhan, especificamente, possui cerca de 30 mil bases de comprimento, sendo bem semelhante ao vírus da SARS. Um fato impressionante é que, quando a SARS começou a ser investigada, levou meses até que o primeiro genoma viral fosse sequenciado, ao passo que, com as tecnologias atuais, o sequenciamento levou apenas algumas semanas
Ainda não há certeza sobre que espécie animal teria sido o vetor de contaminação humana, mas tudo indica que o vírus veio de uma só fonte animal, e não de várias, dado a uniformidade entre os genótipos extraídos de diferentes contaminações.
A infecção por coronavírus atinge uma enzima humana chamada ACE2, que é a mesma do vírus da SARS. Saber a enzima com a qual o vírus se conecta é importante para o desenvolvimento de vacinas.

O que fazer?

Pandemias fazem parte da história humana, e sempre irão fazer. A diferença é que, atualmente, contamos com muito mais recursos tecnológicos – como sequenciamento rápido de DNA – e institucionais – como a OMS e as organizações locais de saúde com seus protocolos – para fazer o trabalho de manutenção da saúde pública. É importante termos calma e seguirmos as recomendações destas organizações, bem como nos certificarmos de que quaisquer informações que transmitimos sejam verídicas, dado que informações falsas podem ser mais nocivas do que o próprio vírus.