Coronavírus: a genética das pandemias

Atualizado em 11/06/2021.

Desde o final de 2019, quando o vírus SARS-CoV-2 foi identificado na cidade Wuhan, na China, o comportamento das pessoas em todo o mundo e as relações humanas mudaram de uma maneira nunca antes testemunhada pelas gerações mais recentes. O uso de máscaras de proteção, a restrição nas movimentações e a proibição da reunião de pessoas já são parte da nova realidade. Tudo isso como tentativa para frear a COVID-19, a doença causada em decorrência do vírus.

Poucos meses após os cientistas terem conhecimento do “novo coronavírus”, ele já havia se espalhado para todos os cantos do planeta e deixado uma marca irreparável nas populações, o que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 11 de março de 2020, conferir à doença o status de pandemia. Até junho de 2021, a OMS reportou mais de 174 milhões de casos de COVID-19 e quase 3,8 milhões de mortes causadas pelo coronavírus.

O Brasil se tornou um dos epicentros da doença, chegando a registrar um dos maiores números diários de mortes mundialmente: no total, até junho de 2021, mais de 17 milhões de pessoas foram infectadas pela COVID-19 no país e aproximadamente 476 mil perderam a vida, segundo dados da OMS.

As consequências da pandemia foram tão grandes que diversos países fecharam todas as suas fronteiras, proibindo a entrada de viajantes, e eventos de grande porte, como festivais de música e até mesmo os Jogos Olímpicos de Tóquio, foram adiados.

Atualmente, uma das estratégias mais eficazes contra a COVID-19 é a administração de vacinas. Após cientistas de laboratórios do mundo inteiro terem se dedicado integralmente a desenvolver imunizantes contra a doença, a primeira vacina foi aplicada na primeira semana de dezembro de 2020, menos de um ano após a identificação do vírus. 

Embora algumas vacinas já tenham sido aprovadas pelas agências competentes dos países, outras ainda se encontram em fase de testes. No Brasil, até junho de 2021, cerca de 24,5% da população já receberam ao menos uma dose do imunizante.

Por que este coronavírus é “novo”?

Apesar do SARS-CoV-2 ter sido identificado recentemente, ele faz parte de um gênero viral já conhecido pelos cientistas, os coronavírus. Este tipo de vírus, do qual se tem registro desde a década de 1960, causa infecções respiratórias em seres humanos e animais, que podem, muitas vezes, levar a sintomas graves, hospitalizações e mortes.

Além da COVID-19, outras doenças geradas por coronavírus que tiveram destaque na mídia nos últimos anos são a SARS e a MERS. O vírus da SARS, sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Severa, foi identificado em 2002 na China e levou a óbito cerca de 800 pessoas em todo o mundo. Por sua vez, a MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) foi notificada primeiramente na Arábia Saudita em 2012. Ao contrário da SARS, controlada pouco tempo após o seu registro, a MERS continua sendo diagnosticada. Até hoje, cerca de 2,5 mil casos da doença foram identificados, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

Infecções virais e drift antigênico

Estas pequenas estruturas que chamamos de vírus não se tratam de seres vivos – informação que pode parecer estranha em um primeiro momento. Os vírus, diferentemente dos seres vivos, não se reproduzem por conta própria, ou seja, necessitam de um hospedeiro para se multiplicarem. Em muitos casos, esse processo envolve usar o maquinário celular de um determinado tipo de célula do hospedeiro, comprometendo sua função.

É aí que o vírus passa a ser um patógeno. 

Por exemplo: o HIV infecta células do sistema imune, que são mortas durante o processo, afetando, consequentemente, a imunidade do infectado. Já o Influenza infecta células do trato respiratório, ocasionando sintomas característicos da gripe. E assim por diante.

Ao contrário dos seres vivos convencionais, que possuem dispositivos de resistência a mutações, os vírus são seres mais propensos a alterações em seu material genético. Observa-se neles um fenômeno conhecido como drift antigênico, que nada mais é do que a mudança na estrutura e material genético viral ao longo do tempo devido ao seu processo de replicação. Isso faz com que a variância nos gêneros virais seja maior que, por exemplo, em bactérias. Por esta razão, os vírus são, em geral, agentes mais contagiosos, o que pode dificultar a criação de vacinas contra eles.

Isso é ainda mais difícil quando o vírus é uma espécie híbrida.

Shift antigênico: intercâmbio viral entre espécies e vírus híbridos

Muitas pandemias têm origem em outras espécies animais: a gripe A, causada pelo vírus H1N1, teve origem em porcos. A H5N1, por sua vez, se originou de aves. O Zika Vírus normalmente infecta macacos e a peste negra, que matou grande parte da população europeia no século XIV, teve sua origem traçada às pulgas de ratos. 

Acontece que há muitos tipos virais endêmicos (ou seja, comuns) em certos animais, mas que, normalmente, não infectam outras espécies. Porém, a convivência próxima entre pessoas e animais pode causar um fenômeno conhecido como shift antigênico, isto é, quando a recombinação entre trechos virais de espécies diferentes formam um terceiro vírus, capaz de contaminar tanto uma espécie quanto a outra. Normalmente, quando isso acontece, a doença passa a ter o nome da espécie em questão, como no caso do termo “gripe suína”, utilizado para se referir à infecção causada por H1N1.

O shift antigênico foi descrito por Richard Shope em 1932, quando o pesquisador usou secreção nasal de porcos infectados por gripe para forçar o contágio de outros animais, provando, assim, que é possível que uma espécie viral inicialmente endêmica em uma espécie sofra adaptações e se torne capaz de infectar outras.

O que fazer?

Pandemias fazem parte da história humana – e sempre farão. A diferença é que, nos dias de hoje, contamos com mais recursos tecnológicos – como o sequenciamento rápido de DNA – e um apoio institucional mais forte – como a OMS e as organizações locais de saúde com seus protocolos sanitários – para fazer o trabalho de manutenção da saúde pública.

A recomendação é que sigamos as advertências destas organizações e que nos certifiquemos de que as informações que transmitimos sejam verídicas e tenham fundamentação científica, dado que informações falsas podem ser extremamente nocivas e causar impactos graves às pessoas e à saúde pública em geral.