Conheça a história de Célia e o que ela conseguiu descobrir com seu DNA

Célia Márcia Rodrigues não tinha informações sobre o passado de sua família. Hoje, ela conta o que descobriu sobre os seus ancestrais com o Teste de Ancestralidade.
Uma pergunta muito recorrente que nos fazem é “Para que serve o teste de ancestralidade?”, e essa explicação pode ser dada de diversas maneiras, como pertencimento a uma cultura, respeito aos antepassados, conservação de trajetórias ou entendimento do passado para adquirir um melhor preparo para o futuro. Outro motivo que leva as pessoas a buscarem o teste se justifica pela escassez, ou falta, de registros de suas famílias. Isso é uma realidade muito frequente no Brasil, que acontece com a maioria dos descendentes dos africanos trazidos ao país como escravos, por exemplo, e que após a travessia oceânica perderam quase completamente seus registros familiares. Esse infortúnio da perda das informações atinge outros casos também, como descendentes de árabes, que tiveram seus antepassados confundidos e registrados como turcos em território nacional, além de refugiados de guerra, órfãos e descendentes de nativos americanos; muitos deles simplesmente não tiveram como preservar os registros de suas famílias. A história que vamos contar nesse texto é sobre um desses casos.
 

A imagem apresenta Célia Rodrigues durante a explicação da história de sua mãe para o vídeo da campanha "Retratos" da Genera.
Célia Marcia Rodrigues, que teve a história de sua mãe escolhida para a campanha Retratos.

 

Todo DNA conta uma história

No dia 27 de Julho de 2019, Célia Márcia Rodrigues escreveu uma carta contando sua história e enviou para nós, da Genera, em um momento que estávamos com as inscrições abertas para nossa Campanha de Ancestralidade. Essa campanha tinha como intuito oferecer um teste de ancestralidade global às três histórias mais interessantes sobre o tema “por que você gostaria de saber mais sobre o seu passado?”. Comovente, o relato de Célia foi um dos escolhidos para figurar em nossa campanha “Retratos”, na qual contamos as três histórias escolhidas por nossa equipe.
Em sua carta, Célia relata ser mestiça, filha de japonês com português. “Quando minha mãe nasceu, minha avó descobriu que o namorado – de quem ela estava grávida – iria se casar… decidiu então se matar tomando veneno, dentro do hospital, já que era enfermeira.” Antes de tirar sua própria vida, pediu a uma amiga para criar a criança recém-nascida, a quem deu o nome de Maria, e nunca contar a ela quem eram seus familiares japoneses. 
Após a tragédia, Maria foi viver com a família dessa amiga de sua mãe, tornando-se sua irmã de criação, crescendo e trabalhando no hotel que eles tinham. “Com isso minha mãe sofreu”, relata Célia. “Muito pela pobreza que passou, e muito mais em ter sido rejeitada dessa forma. Minha mãe teve 4 filhos e nunca quis que nos envolvêssemos com orientais com medo de ser um parente desconhecido dela… e vai morrer sem saber, infelizmente.” Até muito recentemente, não parecia que esse desconhecimento seria solucionado.
 

A foto contem um retrato sendo segurado por duas mãos e na foto há uma família. No fundo há uma mesa onde pode ser visto um kit de coleta da Genera e outro retrato com um grupo de pessoas
Família de Célia.

 
Célia cresceu sabendo da história de sua mãe e de sua avó, e também acabou ficando com as mesmas dúvidas quanto ao seu passado. O máximo de informação que possuía era que sua família materna tinha origem japonesa. A irmã de criação de Maria cumpriu seu juramento e morreu sem lhe revelar a identidade de seus pais, e o medo de nunca conhecer seu passado a entristecia profundamente. 

O resultado de Célia

Motivada a descobrir mais sobre seu passado, Célia fez seu teste e, quando recebeu o resultado, foi invadida por um sentimento de esperança: a história nunca consegue ser totalmente apagada. O resultado da Célia mostra muito bem sua herança asiática e portuguesa, sendo esta última um presente de seu pai. A história de sua avó e de seus ancestrais continuou presente em seu DNA, e saber sobre eles concretizou o que era dito pela sua mãe. As expectativas eram altas e a esperança preenchia os corações de quem acompanhava o desfecho dessa história: outros parentes foram encontrados que pudessem ajudar a traçar os históricos e as relações perdidas? 
As origens de Célia e de Maria foram encontradas na análise de seu DNA, e alguns de seus possíveis parentes vivos que já tinham feito o teste também puderam ser identificados por meio da nossa Busca de Parentes. Estes parentes estão espalhados por Brasil, península ibérica e Estados Unidos, e uma parte deles, em especial, carrega sobrenomes japoneses.
Muitas vezes, a vida real não apresenta os melhores fins para as histórias em que depositamos mais expectativa. Até o momento da redação desta publicação, nenhum contato sólido conseguiu ser estabelecido com esses elos perdidos. Todavia, como bons brasileiros que somos, não conseguimos simplesmente perder as esperanças dessa reunião, pois a plataforma de busca por parentes é constantemente atualizada a cada nova pessoa que realiza um de nossos testes. Histórias da vida real não possuem fins que possam ser determinados por uma data ou pela nossa redação. Apenas o futuro poderá dizer, mas quem sabe não é você o elo perdido que falta para completar a história de Maria e Célia?
O resultado do teste revelou que Célia possui DNA 51% asiático, o que condiz muito bem com a expectativa para alguém que é neta de asiáticos não-miscigenados. Desta porcentagem, 44% representam origem japonesa e coreana. A dúvida que pode surgir agora é: por que o resultado de alguém que é conhecidamente descendente de japoneses apresenta uma porcentagem dividida entre Japão e Coreia?

Demonstração de resultado do exame de Ancestralidade Global da Genera. O destaque do resultado é dado à parte asiática da ancestralidade de Célia Rodrigues, que totaliza 51%;
Recorte do resultado de Célia apresentado na plataforma de resultados da Genera.

Explicando sobre o resultado “Japão e Coreia”

Para responder à pergunta levantada no último parágrafo, nós temos que lembrar que as fronteiras que foram definidas pelos estados nacionais modernos nem sempre foram as mesmas, e as próprias definições dos povos e das nações que existem atualmente nem sempre foram tão claras.
A maioria étnica existente atualmente no Japão, os Yamato, descende diretamente do cruzamento do grupo indígena Jōmon com um grupo que veio do continente, os Yayoi, e as hipóteses mais fortes apontam que este último grupo habitava anteriormente áreas compreendidas entre o delta do rio Yangtzé, na atual China, e a península coreana. Os Yayoi também teriam se juntado a outros povos que habitavam essas regiões, dando origem aos chineses Han e aos coreanos modernos. Quando colocamos em perspectiva que esse processo de migração dos Yayoi para as ilhas japonesas começou há cerca de três mil anos – o que permitiu tempo suficiente para acúmulo de diferenças culturais e étnicas -, se apresenta de forma menos estranha a ideia de uma origem comum e de semelhança genética entre esses grupos.
 

Reconstrução em material desconhecido de cena que apresenta uma interação entre três indivíduos do grupo étnico Yayoi. Eles vestem roupas simples e primitivas Há um homem carregando o que parece ser uma ferramenta para o plantio. Há uma mulher mostrando o que está cozinhando para esse homem, e sentada no chão e acompanhada de um cachorro há uma criança aparentemente desinteressada na interação entre os adultos.
Reconstrução do povo Yayoi contida no Museu Nacional de Natureza e Ciência, em Tóquio. Foto de Momotarou2012, 2013.

 
Além da origem comum milenar que esses povos possuem, houve inúmeras interações e migrações (forçadas e voluntárias) entre essas regiões, com os primeiros registros continentais mencionando o Japão datando de 57 EC (Era Comum). Existiram também momentos marcantes na história moderna e contemporânea que ajudam a explicar a afinidade genética entre esses dois países, como as invasões japonesas na Coreia no final do século XVI e o domínio do extinto Império Japonês sobre toda a península coreana e partes da China e das ilhas da Oceania, entre os anos de 1895 e 1942.

Referências

1 – Yang, Xiong et al. “Identification of close relatives in the HUGO Pan-Asian SNP database.” PloS one vol. 6,12 (2011): e29502. doi:10.1371/journal.pone.0029502

2 – Tian, Chao et al. “Analysis of East Asia genetic substructure using genome-wide SNP arrays.” PloS one vol. 3,12 (2008): e3862. doi:10.1371/journal.pone.0003862
3 – Siska, Veronika; Jones, Eppie Ruth; Jeon, Sungwon; Bhak, Youngjune; Kim, Hak-Min; Cho, Yun Sung; Kim, Hyunho; Lee, Kyusang; Veselovskaya, Elizaveta; Balueva, Tatiana; Gallego-Llorente, Marcos; Hofreiter, Michael; Bradley, Daniel G.; Eriksson, Anders; Pinhasi, Ron; Bhak, Jong; Manica, Andrea (2017). Genome-wide data from two early Neolithic East Asian individuals dating to 7700 years ago (PDF). Science Advances (published February 1, 2017). 3 (2): e1601877. Bibcode:2017SciA….3E1877S. doi:10.1126/sciadv.1601877
4 – Wang, Yuchen; Lu Dongsheng; Chung Yeun-Jun; Xu Shuhua (2018). Genetic structure, divergence and admixture of Han Chinese, Japanese and Korean populations (PDF). Hereditas. 155: 19. doi:10.1186/s41065-018-0057-5
5 – Sin, Hyŏng-sik. (2004). A Brief history of Korea
6 – Bruce Cummings (2010). “38 degrees of separation: a forgotten occupation“. The Korean War: a History
7 – Paine, S.C.M (2003). The Sino-Japanese War of 1894–1895: Perceptions, Power, and Primacy. Cambridge University Press
8 -Instituto da Cultura Árabe (06/2005). Estereótipo de árabes confundidos com turcos permanece. Disponível em: <https://icarabe.org/noticias/estereotipo-de-arabes-confundidos-com-turcos-permanece>.