Carnaval – história e cultura em diferentes países

Sumário de notas principais (SNP)

  • O carnaval é uma festa anual relacionada ao cristianismo que surgiu na Europa e se espalhou pelo mundo;
  • Suas origens são incertas, mas possivelmente derivam de festas pagãs;
  • O carnaval brasileiro é o maior do mundo, e serviu de inspiração para muitos países;
  • Ainda assim, cada localidade possui um carnaval próprio, resultado da fusão de várias tradições.

O carnaval é uma festividade anual, com duração de vários dias, que precede a Quaresma em vários países de maioria católica – como no Brasil. As origens da festa são desconhecidas, mas especula-se que seja derivada de práticas pagãs, anteriores aos cristianismo, como a lupercália e a saturnália. 
Uma das possíveis explicações para o nome “carnaval” seria relacionada à expressão em latim carnem levare, que significa “remover ou levar embora a carne” – sendo que “carne” aqui pode se referir tanto ao alimento quanto ao instinto sexual, ou ainda ao corpo humano físico (em oposição à alma). Assim, o carnaval representava um último período de festança, libertinagem e celebração antes dos rigores da Quaresma – que, tradicionalmente, seria um período de privação de produtos de origem animal, jejum, penitência, reflexão e abstenção sexual -, sendo, portanto, um evento fortemente associado à tradição cristã, embora não obedeça a valores cristãos em sua essência.
Embora algumas pessoas no Brasil critiquem o carnaval de rua atual, por conta “do tumulto, da falta de pudor e do excesso de álcool”, e cheguem a afirmar que “no passado era mais elegante, sem esses exageros”, a verdade é que essa festa sempre foi um momento de quebra das hierarquias sociais e do decoro (e que a mesma desaprovação pode ser encontrada em todos os outros países que comemoram o carnaval). As multidões participantes frequentemente caçoavam de figuras sagradas ou de autoridades; as fantasias e máscaras eram obscenas (tal qual o linguajar utilizado durante a folia), buscando a estética de “corpo grotesco” e ostentando narizes, bocas, barrigas, seios e falos desproporcionalmente grandes; e o consumo de álcool era excessivo, facilitando brigas e até mortes.

A aparência caótica do Carnaval já estava presente nas comemorações clássicas italianas. Pintura de Johannes Lingelbach, aproximadamente em 1650.

O carnaval brasileiro é o maior do mundo, e também é a maior festa popular que temos, sendo disseminada por todo o país. Ainda assim, ela é comemorada de maneiras muito distintas em cada região: temos os desfiles de escolas de samba nos sambódromos de São Paulo e do Rio de Janeiro, o frevo do Galo da Madrugada de Recife, os bonecos gigantes de Olinda, o axé dos trios elétricos de Salvador, o Corso de Teresina e diversos outros, além, é claro, dos blocos de rua e das marchinhas. Muitos países, principalmente lusófonos, importaram e adaptaram a maneira de fazer carnaval dos brasileiros.
Embora o carnaval tenha surgido na Europa, ele se espalhou por todas as partes do globo, unindo a cultura europeia à nativa (e à africana, muitas vezes) e dando origem a celebrações que são próprias de cada região. Quanto ao carnaval brasileiro, de maneira geral, já sabemos como a banda toca. Vamos ver então, a seguir, como a folia acontece em alguns outros países.

Carnevale di Venezia

Algumas das mais famosas tradições carnavalescas, como os bailes de máscaras, têm origem na Itália medieval. A figura mais conhecida do carnaval de Veneza (Carnevale di Venezia) é, provavelmente, a dos mascarados que se vestem dos pés à cabeça com roupas elaboradas e cobrem por completo sua face com máscaras brancas pouco expressivas, não deixando nenhum pedaço de sua pele visível. Esta figura tornou-se simbólica não apenas do Carnevale em si, mas da cidade como um todo, de modo que essas máscaras podem ser encontradas à venda durante todo o ano, para satisfazer os turistas. Apesar dessa percepção de que esse tipo de fantasia seja a representação do carnaval veneziano, a verdade é que fantasias improvisadas, satíricas ou escatológicas são igualmente (ou até mais) presentes. 
A primeira menção do festival nos anais de Veneza data de 1094, mas, após a conquista da cidade por Napoleão em 1797, o evento foi extinguido. Após isto, a memória carnavalesca foi limitada a eventos infantis ocasionais e às personagens de commedia dell’arte (a Colombina, o Arlequim e o Pierrô, dentre outros) que por vezes eram utilizadas em espetáculos de marionetes, além de bailes de máscaras já consagrados que foram mantidos (Cavalchina).
Após a unificação da Itália, lentamente iniciou-se um processo de ressuscitação orgânica do Carnevale, com eventos gradativamente maiores surgindo esporadicamente. Em 1980, ele foi oficialmente restaurado, retornando ao calendário oficial da cidade. Hoje, mais de um milhão de pessoas participam do carnaval anualmente, superando em muito a população local. Embora concentrado no coração da cidade, nos arredores da Piazza San Marco, o carnaval veneziano é um evento que ocupa a cidade inteira, e seus participantes podem sem encontrados em qualquer canto.

As roupas fechadas e máscaras inexpressivas são marcas típicas do Carnaval de Veneza. Foto de Ingeborg Gartner-Grein, 2018.

Fasching

Também conhecido como Fas(t)nacht, Fasnet, Fosnat ou Karneval, Fasching é o carnaval dos países de língua alemã. Os diferentes nomes são empregados dependendo da região: Karneval é mais comum na Renânia, por exemplo, enquanto na Baviera e na Áustria utiliza-se Fasching. As diferenças regionais não param no nome, e envolvem também a duração, a data de início e as próprias atividades da festa. 
Em geral, 1823 é tido como o ano de origem do Karneval moderno, porém práticas similares já eram observadas na região desde 1234. Historicamente, na quinta-feira antes da quaresma, o governo da cidade era passado às mulheres, que ocupavam e assumiam o conselho da cidade. Mais recentemente, como resquício dessa ocasião, as mulheres cortam as gravatas dos homens, compensando-os com beijos.
As celebrações em Colônia (a maior cidade da Renânia) são as maiores e mais famosas. Estas começam cedo, oficialmente no dia 11 de novembro, às 11 horas e 11 minutos da manhã, mas atingem seu ápice nos três dias que precedem a quarta-feira de cinzas, com a Rosenmontag (Segunda-feira das Rosas). Apesar de não ser um feriado oficial, a maior parte dos locais de trabalho fecha, dando espaço aos desfiles. 

Fasching em Eslinga, Alemanha. Foto de LenDog64, 2010.

Mardi Gras
Nos Estados Unidos, as celebrações carnavalescas são normalmente chamadas de Mardi Gras, do francês “terça-feira gorda”, embora se iniciem semanas antes da “real” terça-feira gorda – que no Brasil é a própria terça-feira de carnaval. Apesar de o primeiro Mardi Gras ter sido realizado por volta de 1700 no Alabama, é em Nova Orleans, no estado de Luisiana, que a festa encontra sua capital estadunidense. Lá, a temporada de carnaval se inicia no Dia de Reis (6 de janeiro).
O primeiro desfile documentado de Mardi Gras de Nova Orleans foi em 1837 e, vinte anos depois, foi criada a primeira krewe (Mystick Krewe of Comus), que são agremiações dedicadas ao estabelecimento de um Mardi Gras mais seguro, organizado e também exuberante, com carros alegóricos e desfiles temáticos – análogo às escolas de samba brasileiras. As ações Mystick Krewe of Comus estabeleceram algumas tradições que mais tarde inspirariam outras krewes – como o próprio termo “krewe”, que foi consagrado.
Uma das tradições do Mardi Gras, iniciada em 1871, é o arremesso de bugigangas por parte dos membros das krewes, do alto de seus carros alegóricos, para os foliões mais abaixo na rua. Contas coloridas, moedas de plástico, doces, copos e brinquedos são apenas alguns dos exemplos dos objetos que fazem a alegria dos participantes, que correm para agarrá-los como se fossem tesouros valiosos.
As cores típicas do Mardi Gras estão presentes em praticamente toda a decoração associada à comemoração. Foto de Brian Lin, 2008.

As cores oficiais do Mardi Gras orleniano são o roxo, o verde e o dourado. A história por trás da escolha dessas três cores é nebulosa, mas é fato que sua adesão é grande: não é difícil encontrá-las em máscaras, fantasias, decorações, carros, comidas e nas tais bugigangas arremessadas. Os tradicionais “bolos de rei” (uma espécie de pão doce circular recheado com creme) também ostentam as cores típicas, sendo cobertos por açúcar colorido.

La Diablada

Na Bolívia, o carnaval tem como casa a cidade de Oruro, a aproximadamente 200 km de La Paz. A região era um local cerimonial na era pré-colombiana para o povo Uru, que viajava longas distâncias para realizar seus rituais. Com a colonização espanhola, essas cerimônias foram banidas, mas os nativos continuaram as executando, disfarçando-as como cerimônias cristãs. Assim, eventualmente, a llama llama – dança Uru de adoração ao deus Tiw – passou a fazer parte do carnaval, e mudou de nome para Diablada, sendo atualmente o principal evento do carnaval boliviano.

Foto de Bjaglin, 2009.

A Diablada, também chamada de Dança dos Diabos, é, como o próprio nome diz, caracterizada pelas fantasias de diabos que seus participantes vestem, exibindo assustadoras máscaras com chifres e roupas pesadas e exuberantes. O trabalho detalhado e manual que vai em cada peça faz com que as fantasias cheguem a custar centenas de dólares. A coreografia da dança envolve um confronto entre os diabos e São Miguel Arcanjo, que revela a fusão das tradições nativas com as cristãs.
O carnaval de Oruro é muito associado à Virgen del Socavón, padroeira da cidade, com cerimônias a ela intercaladas durante a celebração. Assim, este carnaval destoa um pouco dos demais por integrar elementos marcadamente religiosos. Em 2001, o carnaval de Oruro (como um todo, não só a Diablada) entrou para a lista de patrimônio imaterial da UNESCO.

Referências

BAKHTIN, Mikhail Mikhallovich. Rabelais and His World. Bloomington: Indiana University Press, 1984. Traduzido por Helene Iswolsky.

SHAFTO, Daniel. Carnival. New York: Chelsea House, 2009.

MARDI Gras Traditions. Disponível em: <https://www.mardigrasneworleans.com/>. Acesso em: 18 fev. 2020.

O’ROURKE, Peter John. Carnevale di Venezia: Performance and Spectatorship at the Venice Carnival. 2015. 341 f. Tese (Doutorado) – Curso de Phd, The University Of Leeds, Leeds, 2015

RUFF, Julius Ralph. Violence in early modern Europe. New York: Cambridge University Press, 2001.

THE EDITORS OF ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Carnival. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/Carnival-pre-Lent-festival>. Acesso em: 10 fev. 2020.

THE EDITORS OF ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Fasching. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/Fasching-carnival>. Acesso em: 10 fev. 2020.

UNESCO. Carnival of Oruro. Disponível em: <https://ich.unesco.org/en/RL/carnival-of-oruro-00003>. Acesso em: 18 fev. 2020.