A influência africana na cultura brasileira

Em Novembro temos uma data importante no calendário: o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado no dia 20 do mês. A data marca a morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares e traz uma reflexão sobre a importância do povo e da cultura africana na construção do nosso país. Por exemplo: você conhece as palavras moleque, fubá, cachaça, berimbau e maracatu? Estas e outras palavras do nosso vocabulário têm origem africana, porém a contribuição da cultura afro não se encontra apenas na língua, mas, também, na culinária, na dança, na religião e na música.

É sempre importante destacar que a cultura africana é extremamente rica e diversificada. São inúmeros povos que habitam o continente, com uma vasta quantidade de línguas, religiões, tribos e costumes distintos. E toda essa diversidade teve um papel importante na formação da identidade cultural afro-brasileira. Durante o período colonial e imperial, povos de diferentes regiões da África como os bantus, nagôs, jejes, hauçás e malês foram escravizados e trazidos para o Brasil, onde tiveram sua cultura suprimida pelos colonizadores.

Foi um período de intenso intercâmbio cultural: os africanos escravizados eram forçados a aprender o português e a se converterem ao catolicismo. Ao mesmo tempo, incorporaram algumas práticas europeias e indígenas enquanto portugueses e índios também foram influenciados pelos costumes dos africanos. Esse processo é a base da formação populacional do Brasil. Além dos traços físicos e marcas genéticas na população, a matriz africana tem influência no jeito de viver brasileiro.

Culinária

Durante a escravidão, as mulheres negras eram responsáveis pela cozinha nos engenhos e isso contribuiu para difundir a influência africana em nossa culinária. Com elas aprendemos a fazer vatapá, feijoada, cocada, pamonha, acaçá, quibebe, mungunzá e claro, o famoso acarajé que virou patrimônio nacional. Não podemos esquecer também da diversidade de temperos como pimentas, leite de coco e o azeite de dendê que acrescentam aquele sabor especial aos alimentos, principalmente nas receitas da região Nordeste.

Mesa enfeitada e um prato com diversos acarajés
Acarajé, conhecido no norte da Nigéria como akara, e que virou patrimônio nacional.

 

Vocabulário

Muita gente nem imagina, mas a África é uma das responsáveis pelo português que falamos hoje no Brasil. Nosso vocabulário é repleto de termos e expressões de origem africana: abadá, caçamba, fubá, corcunda, miçanga, samba, saravá, moleque, macumba, entre outras. Grande parte dessas palavras tiveram origem com os bantus, oriundos de regiões que pertencem hoje à Angola, Congo e Moçambique.

Essa região banto (veja a imagem abaixo) compreende um grupo de 300 línguas muito semelhantes, sendo o quicongo (falado no Congo e no norte da Angola), o quimbundo (região central de Angola) e o umbundo (sul de Angola e em Zâmbia) os que tiveram maior número de falantes no Brasil.

Mapa do continente africano representando as regiões de origem das línguas africanas
Imagem: Mark Dingemanse, Béria Lima de Rodríguez/ Wikimedia Commons

 

Música

A cultura africana também contribuiu com muitos ritmos que são a base de boa parte da música popular brasileira. Sabia que o samba, por exemplo, tem sua origem em rituais religiosos africanos? Os batuques eram utilizados como elementos religiosos e, a partir do século XIX, no Rio de Janeiro, a mistura com o som do maxixe e da polpa, outros ritmos da época, permitiu o surgimento das primeiras rodas de samba brasileiras. Outros gêneros musicais como o Lundu deram origem à base rítmica do maxixe, choro, bossa-nova e outros gêneros musicais atuais. 

Instrumentos como o tambor, atabaque, cuíca, marimba e o berimbau também são heranças africanas que constituem parte da cultura brasileira. O berimbau, inclusive, é o instrumento utilizado para criar o ritmo que acompanha os passos da capoeira, mistura de dança e arte marcial criada pelos africanos escravizados na época da Colônia.

Pessoa sentada com um tambor em uma roda de samba

 

Religiões afro-brasileiras

Os africanos sempre buscaram manter suas tradições religiosas, mesmo sendo proibidos pelos colonizadores portugueses de praticar sua religião e de realizar seus rituais. A obrigação de aderir ao catolicismo levou diversos grupos a misturarem as religiões do continente africano com o cristianismo europeu (sincretismo religioso) e impulsionou muitas religiões praticadas atualmente. 

Diversas pessoas vestidas de branco em um ritual de candomblé
Candomblé, uma das religiões afro mais populares do Brasil. Foto: Divulgação.

 

O candomblé, uma das mais populares do Brasil, principalmente na Bahia, é resultado de uma combinação de influências da Nigéria, de Benin, de Angola e do Congo. Os primeiros terreiros surgiram em Salvador, e adotaram dezenas de orixás, que foram relacionados a um santo católico, como forma de driblar a perseguição dos europeus. A umbanda também é uma religião sincrética, que mistura elementos africanos com o catolicismo e o espiritismo, incluindo a associação de santos católicos com os orixás. Xangô, Babaçuê e Batuque são outras religiões afro que se espalharam pelo país.

Já parou para pensar, por exemplo, qual a origem do ritual de pular sete ondas no mar e de usar roupa branca na noite de Réveillon? Em todas as praias do Brasil, seguidores de Iemanjá costumam seguem essas tradições que têm origem nas religiões africanas. Iemanjá, a Rainha do Mar, é uma divindade africana originalmente vinda da Nigéria, da tradição chamada de iorubá, e incorporada pelo candomblé e pela umbanda no Brasil.

O costume de usar branco, cor que simboliza a paz e a purificação espiritual, já era comum nas antigas tribos africanas, que usavam roupas assim para celebrar Iemanjá na virada do ano. No Brasil, a umbanda disseminou o costume, que foi incorporado pela sociedade.

 

Referências

CASTRO, Yeda Pessoa. A influência das línguas africanas no português brasileiro. In: Secretaria Municipal de Educação – Prefeitura da Cidade de Salvador. (Org.). Pasta de textos da professora e do professor. Salvador: Secretaria Municipal de Educação, 2005. Disponível em: <http://smec.salvador.ba.gov.br/documentos/linguas-africanas.pdf>. Acesso em 13 de nov. 2020.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 43 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.

PETTER, M.M.T.(2000) Talvez sejam africanismos. Estudos Lingüísticos XXIX – GEL – Grupo de estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo. v. 1: 713-718.

Super Interessante. 12 religiões afro que se espalharam pelas Américas. Disponível em: <https://super.abril.com.br/historia/12-religioes-afro-que-se-espalharam-pelas-americas/>. Acesso em 13 de nov. 2020. 

VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.