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Os povos indígenas e suas linhagens no continente americano

No dia 09 de agosto celebramos o dia dos povos indígenas, data que relembra a primeira reunião do Grupo de Trabalho das Nações Unidas que pautava as populações indígenas do mundo com o intuito de discutir padrões de direitos humanos que protegem esses povos. Somando mais de 370 milhões de pessoas, as comunidades indígenas se espalham por cerca de 70 países do mundo, sendo que, no Brasil, estima-se que 800 mil habitantes pertençam a elas. 

De acordo com o censo demográfico de 2010, estima-se que em nosso país existam cerca de 305 etnias, totalizando aproximadamente 274 idiomas indígenas diferentes. No entanto, apesar de serem os habitantes originais de nosso continente, e de sua grande e importante diversidade cultural, pouco é divulgado e conhecido sobre esses povos pela população em geral. Mesmo no currículo escolar, por exemplo, as discussões acerca da população indígena costumam se restringir ao período durante e pós-colonização. 

Além disso, os registros dessa época estão, em sua maioria, limitados às cartas trocadas entre as primeiras expedições Brasil-Portugal. Dessa forma, os hábitos e a distribuição da população podem ser conhecidos apenas através de uma visão estrangeira, que pouco conseguia distinguir as tribos, e acreditava que todos os habitantes nativos de nosso país fizessem parte de um mesmo povo. Essa ideia começou a se transformar apenas em 1887, quando o antropólogo alemão Karl von den Steinen, após viagem ao Brasil, decompôs a população nativa em quatro grandes grupos, cada um dividido em subgrupos, que agregavam centenas de populações que se diferenciavam na língua, cultura, costumes e hábitos.

No entanto, a história dos povos indígenas no Brasil – e no continente americano como um todo – teve início muito antes da colonização. Podemos dizer, aliás, que um dia foram eles os povos colonizadores de um continente ainda não habitado por humanos. Mas como, afinal, essa história começou? De onde vieram os nativos, como viviam, quando e como chegaram à América milênios antes dos colonizadores? Embora essas perguntas ainda sejam motivo de controvérsias e discussões entre os estudiosos do assunto, algumas pesquisas trazem resultados importantes para o preenchimento de certas lacunas nessa linha do tempo, mostrando que esse enredo se inicia há milhares de anos, na Ásia.

Da Ásia à América

O panorama de povoamento do continente americano é muito diversificado e rico em detalhes históricos. A maior parte dos pesquisadores concorda que a origem dos primeiros indivíduos que habitaram a América seja asiática. A teoria mais aceita é que, no período glacial, formou-se um “subcontinente” denominado Beríngia, na região que hoje é conhecida como estreito de Behring. Esse subcontinente ligava o nordeste da Ásia ao norte americano, criando uma ponte que possibilitou a passagem desses antepassados entre cerca de 15 mil e 10 mil anos atrás. Desde então, após a chegada ao continente, esses indivíduos se dispersaram pela América, povoando tanto o norte quanto o sul.

Quando chegaram ao continente americano, nossos antepassados se caracterizavam como caçadores-coletores, ou seja, a maior parte de seu sustento provinha da caça de animais selvagens ou coleta de plantas silvestres. Como as técnicas de cultivo de alimentos e a domesticação de animais ainda não existiam, a ocupação de um lugar fixo não era viável. Além disso, nossos antepassados não possuíam domínio da escrita nem o hábito de realizar outros tipos de registros de situações de seu cotidiano. Dessa forma, não há documentação sobre como esses povos viviam, dificultando a tarefa de historiadores, sociólogos e antropólogos, e trazendo o desafio de encontrar outras formas de obter dados sobre os primeiros habitantes do continente americano. 

Agora, você deve estar se perguntando: como é possível conseguir todas essas informações depois de tanto tempo desde a primeira aparição do homem na América? De fato, traçar um caminho histórico percorrido em um tempo remoto é uma tarefa complicada. Atualmente, para contornar os impasses gerados pela falta de registros, os pesquisadores têm se amparado na observação das sociedades antigas não só por meio da arqueologia, mas também utilizando recursos de bioantropologia e genética. A partir da análise molecular dos vestígios biológicos deixados por essas sociedades e do material biológico de descendentes americanos modernos, é possível rastrear a origem dos povos que colonizaram originalmente as américas. Isso é viável porque o nosso genoma apresenta marcas que sinalizam adaptações a ambientes diversos, bem como gargalos e expansões populacionais. A partir dessas marcações no DNA, é possível rastrear o local de onde partiu o provável ancestral em comum, e o possível caminho percorrido ao longo do globo terrestre por aquela linhagem.

Linhagens dos povos indígenas e testes de ancestralidade

Atualmente, os exames de ancestralidade vêm se tornando cada vez mais populares, e permitindo que muitas informações interessantes sobre nossos antepassados sejam resgatadas. E um dos recursos utilizados nesse contexto é a análise de DNA mitocondrial e do cromossomo Y, que explicamos com mais detalhes abaixo.

A mitocôndria é uma organela que possui DNA próprio. No entanto, via de regra, nossas mitocôndrias são herdadas apenas de nossa mãe. Assim, o DNA mitocondrial sempre passa de mãe para filho(a), não havendo recombinação com o material genético mitocondrial paterno. Isso faz com que nosso DNA mitocondrial seja muito parecido com o de nossa mãe, que por sua vez é muito parecido com o de nossa avó materna, e assim por diante, até nossas ancestrais mais antigas. Quanto maior a distância entre as gerações, maiores são as diferenças genéticas por conta de eventos como, por exemplo, o acúmulo de mutações. No entanto, há certas marcas genéticas de ancestrais longínquas que podem ser identificadas em nosso DNA mitocondrial atual, o que permite identificar a linhagem materna da qual descendemos.

Já o cromossomo Y é um cromossomo presente apenas em pessoas do sexo masculino e, dessa forma, sempre é transmitido do pai para seus filhos do sexo masculino. Assim, seguindo uma lógica semelhante à da herança do DNA mitocondrial, o cromossomo Y de um determinado indivíduo é muito semelhante ao de seu pai, que por sua vez é muito semelhante ao de seu avô paterno, e assim por diante, o que permite identificar a linhagem paterna desse indivíduo através da análise de seu cromossomo Y.

Tais análises permitem identificar linhagens ancestrais de diversos povos ao redor do globo. Dentre eles, é possível identificar linhagens indígenas, o que permite aos indivíduos de ancestralidade nativa americana descobrir mais sobre a história de suas gerações ancestrais.

Referências

1 – SESC São Paulo. De onde vieram os índios brasileiros?. Postado em 05/03/2012. Disponível em: <https://www.sescsp.org.br/online/artigo/6324_DE+ONDE+VIERAM+OS+INDIOS+BRASILEIROS>. Acesso em 08/2019.

2 – IBGE. Projeto Brasil 500 anos. Disponível em: <https://brasil500anos.ibge.gov.br/>. Acesso em: 09/2019.3 – Revista Pesquisa FAPESP. Ancestralidade dispersa. Disponível em: <https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/07/10/ancestralidade-dispersa/>. Acesso em: 08/2019.

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