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Imigração e diversidade genética: como se relacionam?

Em nosso país, a imigração estrangeira teve início no período de colonização das terras brasileiras, que foram povoadas e exploradas por meio de atividades agrárias, principalmente pelo povo português. Desde então, os processos migratórios deixaram importantes marcas culturais e econômicas em todas as regiões do Brasil, especialmente no Sul e no Sudeste, onde a rodovia que conecta São Paulo ao litoral se chama “Rodovia dos Imigrantes” dada sua importância.

Um outro aspecto que carrega marcas da história migratória de nosso país e sua importância é a variabilidade genética da população brasileira.

Variabilidade genética é um conceito que pode ser definido como a diferença no material genético dos indivíduos de uma determinada população que surge através de mutações e recombinações gênicas. Esta variabilidade possibilita a seleção natural, que atua selecionando os indivíduos mais adaptados ao meio em que estão inseridos. Populações que recebem fluxos migratórios tendem a possuir uma maior mudança em seus genes do que populações isoladas, dado que indivíduos migrantes trazem consigo novas variantes genéticas, fruto da interação com ambientes diferentes.

A história da imigração no Brasil

O processo de imigração teve início no Brasil a partir de 1530, quando começou a estabelecer-se um sistema relativamente organizado de ocupação e exploração da nova terra. A tendência acentuou-se a partir de 1534, quando o território foi dividido em capitanias hereditárias e se formaram núcleos sociais importantes em São Vicente e Pernambuco.

A entrada de estrangeiros (ou seja, europeus de origem não-portuguesa) no Brasil era proibida pela Coroa no período colonial, mas isso não impediu a chegada de espanhóis entre 1580 e 1640, quando as duas coroas estiveram unidas; judeus (sobretudo os fugidos da Península Ibérica devido à perseguição da Igreja), ingleses, franceses e holandeses também acabaram se estabelecendo no Brasil, muitas vezes como cientistas e missionários.

Apesar de as capitanias terem sido idealizadas e estruturadas como ferramenta de exploração e imposição da cultura europeia, inevitavelmente os núcleos sociais formados acabaram incorporando populações negras e indígenas, tanto cultural quanto geneticamente. Pesquisas mostram que milhões de brasileiros carregam em seu DNA o material genético de povos indígenas, sendo que o grau de ancestralidade indígena varia de pessoa para pessoa e também geograficamente, sendo mais comum na região Norte.

De maneira geral, as pesquisas mostram que os brasileiros apresentam alto grau de ancestralidade europeia do lado paterno, enquanto as ancestralidades ameríndias e africanas predominam do lado materno. Isso reflete a característica da colonização portuguesa, na qual a maioria dos colonizadores eram homens, gerando um padrão sexual de miscigenação entre homem europeus e mulheres indígenas e africanas.

Fluxo recente de migrações para o Brasil, de 2000 a 2016. Fonte: Nexo.

Por muito tempo, portugueses, africanos e indígenas foram as principais matizes étnicas do Brasil. O cenário começou a mudar com a abolição da escravidão, no final do século XIX, que gerou demanda nas fazendas por mão de obra imigrante. Neste contexto, houve a chegada de um novo fluxo de europeus, mas também japoneses, sírios e libaneses, concentrando-se especialmente nas grandes capitais do sudeste como São Paulo e Rio de Janeiro.

Na segunda metade do século XX, um imenso fluxo de migrantes vindos do Nordeste em direção às capitais do Sudeste foi observado, no que hoje é considerado um dos maiores movimentos de migração em massa dentro de um país em toda a história da humanidade. Hoje, chegam ao Brasil essencialmente angolanos, haitianos, venezuelanos e bolivianos, ampliando ainda mais a diversidade genética do nosso país.

Consequências biológicas dos fluxos migratórios

A seleção natural é o fruto da interação entre o meio ambiente e os seres que o habitam. O meio exerce pressões seletivas, ou seja, oferece “desafios” que somente os seres adaptados àquele ambiente são capazes de transpor. Estes desafios se relacionam com aspectos básicos da sobrevivência, como disponibilidade de alimentos e capacidade de camuflagem e fuga de predadores.

Mariposas pretas hoje são a espécie mais comum na Inglaterra e em diversos outros lugares do mundo. Fonte: Nature.

Por exemplo: na Inglaterra por muito tempo foi mais comum a espécie de mariposas de coloração mais amarronzada, que conseguia se camuflar no tronco das árvores. Mariposas mutantes pretas eram facilmente identificadas e devoradas por predadores. A Revolução Industrial alterou o ambiente ao tornar o carvão e a fuligem muito mais comuns, o que fez com que, aos poucos, as mariposas negras passassem a compor a maior parte da população de mariposas naquele ambiente, ao passo que se camuflavam melhor no novo ambiente, enquanto as amarronzadas acabaram se tornando presas mais fáceis.

Com seres humanos aconteceu um processo muito parecido com esse ao longo dos últimos milhares de anos, em todas as partes do mundo. O ambiente de altitude dos Andes, por exemplo, forjou povos com características adaptadas àquele ambiente: eles possuem muito mais hemácias do que povos que habitam regiões mais baixas. E diferentes partes do globo acabam gerando populações com características muito distintas entre si, de modo que quando diferentes populações se encontram é muito difícil prever o que exatamente vai acontecer. Muitas vezes, acaba sendo catastrófico para uma das populações.

Foi o que aconteceu quando os europeus chegaram pela primeira vez à América. Devido ao histórico de pestes e infecções que a Europa havia experimentado durante a Idade Média, a população europeia era muito mais resistente a infecções como varíola, peste bubônica, gripe e sarampo, diferente dos indígenas. Quando ocorreu o contato entre estas duas populações, os microorganismos causadores dessas enfermidades acabaram sendo transmitidos aos nativos, que não tinham como resistir tanto por não conhecerem remédios e tratamentos para as novas doenças quanto por seus corpos não estarem adaptados. Estima-se que cerca de 70 milhões de indígenas foram mortos por tais doenças, sendo elas, e não o conflito armado, como era de se esperar, as grandes responsáveis pela redução da população indígena no Brasil.

Com o passar do tempo, é inevitável que haja cruzamento entre indivíduos de populações diferentes, que acabam herdando características dos dois lados. E conforme mais tempo passa, surge uma população nova, com características únicas, diferentes das populações que a originaram, fruto de mutações e recombinações gênicas próprias e selecionadas pelo próprio ambiente. É o que está acontecendo no Brasil, agora: uma pesquisa feita pelo Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP identificou 200 mil variações únicas no DNA dos brasileiros, que não são originadas de nenhum dos povos que migraram para cá.

Qual a importância de se conhecer a genética de uma população?

Países como EUA e Hungria tem adotado políticas anti-imigração recentemente. Fonte: Wikipedia

É importante conhecer a genética de uma população porque ela contém informações importantes sobre a saúde desta população, que acabam tendo valor estratégico especialmente para governos e sistemas de saúde, que podem se precaver para as doenças que esta população provavelmente irá desenvolver no futuro.

Conhecer os impactos de fluxos migratórios em países como o nosso certamente ajuda a ter uma ideia do que poderá acontecer em lugares como Europa e Japão dentro de algum tempo, e como as populações e os governos destes países podem se preparar para isso. O trânsito de pessoas pelo mundo tende a se intensificar, devido ao processo de globalização. Em algum tempo, espera-se que populações miscigenadas, como o Brasil, sejam a realidade da maior parte do mundo, diferentemente do que se vê hoje.

Referências

  1. AMABIS, José Mariano; MARTHO, Gilberto Rodrigues. Biologia em Contexto. 1ª edição. São Paulo: Editora Moderna, 2013.
  2. MAIO, Marcos Chor, SANTOS, Ricardo Ventura (orgs.). Raça como questão. História, ciência e identidades no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Faperj, 2010. 316 pp.
  3. GRIOLO, S. Brazilian urban population genetic structure reveals a high degree of admixture. European Journal of Human Genetics vol. 20, pág. 111–116 (2012)
  4. PENA, Rodolfo F. Alves. Imigrações atuais no Brasil. Brasil Escola. Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/geografia/imigracoes-atuais-no-brasil.html.  Acesso em 10/06/2019
  5. Brasileiros têm 200 mil variações genéticas inéditas no mundo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kmUH1NFMnX0&t=145s. Acesso em 06/2019.

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