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FTO, gene do risco à obesidade

O que é Obesidade? 

Podendo estar presente em qualquer fase da vida, a obesidade é uma condição caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal e que, nas últimas décadas, vem se tornando uma epidemia global. Com ela, podemos prever o aparecimento e desenvolvimento de outras anomalias metabólicas, como o aumento excessivo de triglicerídeos, colesterol total, entre outros fatores conhecidos como doenças crônicas não-transmissíveis, principalmente envolvendo questões cardiovasculares e a diabetes. 

Por consequência, o combate à obesidade se tornou uma necessidade de saúde pública, e esforços têm sido movidos para entender seus aspectos da maneira mais ampla possível – o que inclui a busca por variantes genéticas que possam tornar um indivíduo mais propenso ao armazenamento excessivo de gordura.

O gene FTO 

Inicialmente descoberto nos camundongos, o gene recebeu o nome de FT (do inglês fused toes), devido ao fato de certas mutações neste gene resultarem em sindactilia (fusão de dedos) nesses animais. Só após a descoberta de sua relação com o acúmulo excessivo de gordura corporal, seu nome foi mudado para fat mass and obesity associated (FTO). 

A função exata do gene FTO ainda não foi plenamente elucidada, porém sua expressão no hipotálamo, cuja regulação é promovida pelo jejum, pode sugerir um possível papel no controle da homeostase energética, com o produto do FTO atuando como regulador primário do acúmulo de gordura corporal. Há também uma relevante expressão desse gene encontrada no tecido adiposo, pâncreas, fígado, musculatura esquelética estriada e cardíaca, rins, gônadas, entre outros. 

Apesar de ainda não ter sido identificada a estrutura da proteína que este gene expressa, nem encontrada alguma ligação com outras proteínas conhecidas, certos estudos já atribuíram importância científica a 92 SNPs presentes no FTO, dos quais 26 estariam relacionados com o IMC. 

A sigla SNP vem do inglês single nucleotide polymorphism, que traduzido corresponde a “polimorfismo de nucleotídeo único”. Ou seja, um SNP é um ponto específico do DNA (por isso “nucleotídeo único”) que pode apresentar variações entre diferentes indivíduos da população (por isso “polimorfismo”). Para facilitar sua identificação, cada um desses pontos do nosso material genético recebe um número de referência, chamado “rs” (do inglês, reference SNP).

SNPs são variações que ocorrem em um único ponto do DNA entre diferentes indivíduos de uma população. Fonte: http://atlasofscience.org/single-nucleotide-polymorphisms-as-genomic-markers-for-high-throughput-pharmacogenomic-studies/

Em meio aos diversos pontos estudados no gene FTO, alguns se destacam, dentre eles o SNP identificado como rs9939609. Este SNP pode apresentar dois alelos – o que, nesse caso, significa que duas diferentes bases nitrogenadas (A ou T) podem ocupar essa posição específica em nosso DNA.

O SNP rs9939609 e a obesidade

Estudos vêm mostrando que, no SNP rs9939609, a presença do alelo A está associada a um maior acúmulo de gordura corporal, principalmente quando se apresenta na forma homozigota (AA). Em um estudo compreendendo 19.424 indivíduos europeus, foi observado que tal genótipo de risco (AA) confere, em média, uma massa corporal 3 kg maior e aumento da prevalência de obesidade em cerca de 50% em comparação a adultos sem o alelo de risco (ou seja, adultos TT). Em outro trabalho com 2.726 crianças, portadores do alelo de risco apresentaram maior IMC e massa gorda, concomitantemente à preferência por alimentos mais calóricos.  

Estudos adicionais também mostraram que adultos e crianças de ancestralidade europeia, homozigotos A para o SNP rs9939609, apresentaram 22% mais chance em desenvolver obesidade severa. Os adultos de ambos os sexos, portadores dos alelos TT (homozigotos T) são, em média, 3kg mais leves que os homozigotos A, e 1,5kg mais leves que os heterozigotos (AT). Isto indica que os homozigotos T apresentam uma menor massa corporal. Para cada cópia do alelo A que o indivíduo possui, ocorre, em média, um aumento correspondente a 0,4 kg/ m² no IMC.  

O IMC pode ser calculado dividindo-se a sua massa pela sua altura ao quadrado. Fonte: http://www.metaemagrecer.com.br/peso-ideal-e-saudavel/  

Resultados diferentes, no entanto, foram encontrados em populações de ilhas oceânicas (Malásia, Micronésia e Polinésia). Dos 320 voluntários, aproximadamente 73% eram obesos (IMC ≥30kg/m²). Não foi encontrada nenhuma relação entre os alelos AA, AT ou TT com a presença de obesidade. Os autores sugerem que talvez outro polimorfismo do gene FTO seja mais atuante nesta população.

A obesidade está associada apenas às informações contidas no gene FTO? 

Não. Além deste componente genético, outros fatores – genéticos ou não – podem afetar potencialmente o desenvolvimento da obesidade, como hábitos alimentares, gastos energéticos diários, uso de medicamentos, sedentarismo, entre outros. A variabilidade destes fatores dificulta a determinação da influência de SNPs sobre uma característica específica. 

O que podemos afirmar é que um indivíduo com predisposição genética para a obesidade que possui um estilo de vida sedentário, associado a hábitos alimentares ruins, possui grandes chances de se tornar obeso caso não preste a atenção adequada à sua saúde.  

Alelos de risco para a obesidade: uma sentença?

Nos estudos citados anteriormente, caucasianos homozigotos A para o SNP rs9939609 apresentaram maiores chances de desenvolver acúmulo excessivo de gordura corporal. Os homozigotos A também podem apresentar menor resposta à saciedade e costumam fazer escolhas por alimentos com maior densidade energética. A influência desse alelo, no entanto, foi menos expressiva em indivíduos de etnia não-caucasiana, fisicamente ativos, ou que foram expostos a grandes privações calóricas ou proteicas.

A maior facilidade para o acúmulo de gordura corporal dos homozigotos A, mais a redução na percepção da saciedade, podem facilitar a instalação de comorbidades que se desenvolvem juntas à obesidade, como o diabetes tipo II, a piora do perfil lipídico sanguíneo e o consequente desenvolvimento de doenças cardiovasculares. No entanto, a convergência das evidências expostas indica que a obesidade é de origem multifatorial, com forte influência do estilo de vida, o que pode colocar pessoas portadoras do alelo A para o SNP rs9939609 em condições mais favoráveis para o acúmulo excessivo de massa gorda. No entanto, hábitos como a atividade física podem atuar como fatores protetores para indivíduos AA e AT.  

Como prevenir? 

Um fator genético pode não levar a um quadro determinante caso o indivíduo tome consciência deste e passe a viver um estilo de vida mais saudável. Sendo assim, o encorajamento para uma mudança de comportamento alimentar deve ser oferecido a todas as pessoas, independentemente de estas serem ou não portadoras do alelo A para o SNP rs9939609 ou de outros fatores de risco genético.  

As doenças crônicas não transmissíveis, associadas ao excesso de gordura corporal, estão mais condicionadas ao estilo de vida, que aumenta o risco a obesidade, do que ao SNP rs9939609. No entanto, é necessária a pesquisa de diferentes etnias e miscigenações, levando em consideração as inúmeras variáveis que compõem o estilo de vida e que parecem ter o poder, em alguns casos, de minimizar a ação do fator genético. 

Referências 

http://www.scielo.br/pdf/rbcdh/v12n2/a12v12n2
http://www.abeso.org.br/pdf/revista54/genetica.pdf

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