SNP: Sumário de Notas Principais

  • O Hanucá é uma celebração judaica que comemora a retomada do Segundo Templo de Jerusalém.
  • Sua origem remonta ao período de conflito entre judeus tradicionalistas contra o Império Selêucida e os judeus helenizados.
  • Seu símbolo mais conhecido é a Hanukiá, um candelabro especial de nove braços.
  • Nos últimos dois séculos tem sofrido muita influência natalina e aspectos comerciais do feriado cristão foram incorporados às práticas judaicas, especialmente no Ocidente.

Na última quinta-feira (10/12) teve início em todo o mundo a comemoração do Hanucá, uma celebração judaica de oito dias que, apesar de não ser uma das mais importantes no calendário judeu, é provavelmente uma de suas celebrações mais famosas. Conhecido como Festival das Luzes, o Hanucá comemora a retomada e rededicação do Segundo Templo de Jerusalém após a vitória dos Macabeus contra os sírios do Império Selêucida, no século II AEC, e ainda hoje é uma comemoração que carrega grande simbolismo e mobiliza judeus do mundo inteiro para a celebração. Mas você sabe como surgiu o Hanucá?

Contexto histórico

O Oriente Próximo passava por um período bastante conturbado por volta de 200 AEC. O Império Macedônico já estava fragmentado pelo menos um século antes disso e vários outros reinos e impérios surgiram a partir das regiões dominadas por Alexandre III, o Grande, e deram continuidade a um fenômeno cultural muito presente na expansão macedônica: a helenização.

Helenização é o processo de difusão e incorporação da cultura grega (especialmente a cultura de Atenas do século V AEC). Várias regiões próximas às polis gregas já haviam passado por esse processo durante a antiguidade clássica, mas foi com a morte de Alexandre o Grande que iniciou-se o Período Helenístico, quando a cultura grega alcançou sua maior expansão e influência, sendo comum observar sua arquitetura e escutar sua língua em locais como Egito, Síria e Índia.

Um dos povos que mais foi influenciado pela helenização foram os judeus, que durante muito tempo, não observaram esse processo de incorporação e mistura como algo problemático para a manutenção da fé. Para muitos da época não havia conflitos inconciliáveis entre manter-se judeu e incorporar o estilo de vida grego, como praticar atividades físicas nos ginásios, participar das competições tradicionalmente gregas e inclusive abandonar o ritual da circunsição, mas para outros esse amálgama entre as diferentes culturas representava um risco para os israelitas.

 

Mapa do mundo helenístico após a fragmentação do Império Macedônico.
Mapa do mundo helenístico após a fragmentação do Império Macedônico, em 301 AEC. Em amarelo pode ser vista a extensão territorial do Império Selêucida.

O conflito

O Império Selêucida, liderado por Antíoco III, dominou o Reino da Judeia ainda nessa mesma época, e continuou com as práticas de tolerância cultural e religiosa comuns do momento. Foi com seu filho Antíoco IV Epifânio que essas práticas mudaram. Ao retornar de uma campanha contra o Egito em 168 AEC, ele decide atacar Jerusalém, matando milhares de pessoas, profana o Segundo Templo ao construir um altar de adoração ao deus grego Zeus e sacrifica porcos dentro de seus muros sagrados, além de também proibir a prática do judaísmo na Judeia (essa determinação não valia para os judeus em diáspora, ou seja, que moravam fora da terra natal do povo de Israel).

“Quanto aos livros da Torá, os que lhes caíam nas mãos eram rasgados e lançados ao fogo. Onde quer que se encontrasse, em casa de alguém, um livro da Aliança ou se alguém se conformasse à Torá, o decreto real o condenava à morte. Na sua prepotência assim procediam, contra Israel, com todos aqueles que fossem descobertos, mês por mês, nas cidades. No dia vinte e cinco de cada mês ofereciam-se sacrifícios no altar levantado por sobre o altar dos holocaustos. Quanto às mulheres que haviam feito circuncidar seus filhos, eles, cumprindo o decreto, as executavam com os mesmo filhinhos pendurados a seus pescoços, e ainda com seus familiares e com aqueles que haviam operado a circuncisão. Apesar de tudo, muitos em Israel ficaram firmes e se mostraram irredutíveis em não comerem nada de impuro. Eles aceitaram antes morrer que contaminar-se com os alimentos e profanar a Aliança sagrada, como de fato morreram. Foi sobremaneira grande a ira que se abateu sobre Israel”

– 1 Macabeus 1:56-64

Entre os judeus que não aceitaram as imposições selêucidas estava o sacerdote Matatias, que morava com sua família fora da cidade de Jerusalém. Quando foram convocados para realizarem os sacrifícios profanos no Templo, Matatias matou um judeu helenizado que se ofereceu para realizá-los em seu nome, e fugiu com sua família e apoiadores para as montanhas e áreas selvagens da Judeia, iniciando o movimento de resistência que veio ser chamado de Revolta dos Macabeus. Esse nome se deve ao sucessor de Matatias, seu filho Judas Macabeu (“martelo” em hebraico), que após a morte de seu pai em 166 AEC, desenvolveu táticas de guerrilha para lutar contra os selêucidas e seus apoiadores. 

Após três anos de batalha, os Macabeus entraram em Jerusalém mais uma vez, mas agora triunfantes por terem vencido as forças de Antíoco na Judeia. Uma grande força selêucida chegou a ser enviada da Síria para retomar a terra dos israelitas, mas retornaram no meio do caminho graças à morte de Antíoco IV Epifânio, que sucumbiu a uma doença desconhecida enquanto guerreava contra os partas do Irã.

 

Busto do imperador selêucida Antíoco IV Epifânio, com o nariz quebrado.
Busto do imperador selêucida Antíoco IV Epifânio. Museu Altes – Berlim.

 

O milagre

A retomada de Jerusalém foi seguida pela limpeza ritualística do Segundo Templo, restabelecendo o judaísmo tradicional como a religião da Judeia. Em festa graças à vitória e rededicação do Templo, os judeus estenderam a comemoração por oito dias, celebrando com cânticos, orações, sacrifícios e decorações. Judas Macabeu ordenou que a festa deveria ocorrer todos os anos, dando início oficial ao Hanucá. Além disso, de acordo com o Talmud, os Macabeus apenas conseguiram encontrar um único jarro de óleo consagrado intacto e que poderia ser usado para acender as velas da Menorá, o candelabro sagrado do judaísmo. Com quantidade de óleo suficiente para apenas um dia, milagrosamente a Menorá queimou por oito dias, o que deu tempo para encontrarem mais óleo consagrado. Apesar da descrição do milagre não estar presente nos relatos dos Macabeus, essa tradição foi incorporada ao Hanucá dentro de poucos séculos.

 

Reconstrução da Menorá sagrada do Segundo Templo de Israel.
Reconstrução da Menorá do Segundo Templo de Israel. Instituto do Templo – Jerusalém

 

O Festival das Luzes

A celebração do Hanucá inclui diversos costumes religiosos e não-religiosos. O mais importante deles é acender a Hanukiá, uma menorá especial de 9 braços (comparada à tradicional de 7 braços). Começando na véspera do primeiro dia, uma vela ajudante (shamash) é acesa. Em cada uma das oito noites do Hanucá uma nova vela é colocada na hanukiá da direita para a esquerda, e em todas as noites elas são acesas da esquerda para a direita com a vela ajudante, enquanto todas as pessoas presentes realizam orações e agradecimentos. 

 

Uma hanukiá de latão com todas as velas acesas.
Uma hanukiá no último dia do Hanucá

 

Hoje em dia, em Israel, o Hanucá é um feriado nacional. Estudantes apresentam peças de teatro, cantam músicas especiais do feriado e fazem festas. As escolas fecham e hanukiás são colocadas em cima de diversos edifícios. As crianças brincam com um pião quadrangular chamado Dreidel, e cada lado do peão começa com uma inicial da frase Nes Gadol Haya Po (Um grande milagre aconteceu aqui)

 

Dois dreidels e oito moedas de chocolate.
Além de brincarem com o dreidel, é comum que crianças recebam moedas de chocolate durante o Hanucá


Como alusão ao milagre, as comidas tradicionais do Hanucá são fritas em óleo, e panquecas de batata (latkes) e rosquinha recheadas com geléia (sufganiyot) são especialmente populares entre as famílias.

 

Fotografia de uma mesa de doces comuns do Hanucá, com um prato de rosquinhas próximo a balas e chocolates.
Prato de sufganiyot

 

Influência cristã

O Hanucá acontece sempre muito perto do Natal, e graças à popularidade da celebração cristã, acabou recebendo uma forte influência em sua prática no ocidente, principalmente após a Segunda Guerra Mundial. Termos como “Chrismukkah” (do inglês Christmas (Natal) + Hanukkah)  ou “Weihnukka” (do alemão Weihnachten (Natal) + Hanukkah) se tornaram mais comuns entre famílias judias que moram em locais majoritariamente cristãos, e adaptações de símbolos da festa cristã, como a Árvore de Natal e o Papai Noel passaram a estar mais presentes entre judeus da Europa e da América, como a Árvore do Hanucá e o Homem do Hanucá (tradução literal do inglês Hanukkah Man).

Referências: